| Nove talentos
“Qual é o teu prisma? De que cor é o teu céu? Por onde andas tu? Cuida dos pés descalçando-os e fazendo-os passear sobre a relva úmida? Ou andas como o astrônomo da fábula, a mirar estrelas, sem ver o abismo aberto: essas tiras de papel branco que pedem tinta, e que gostariam de também, desta vez receber idéias?”
Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). Filho de um operário mestiço de negro e português. Criado pela madrasta também mulata, Maria Inês. Vendedor de doces na infância em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Aluno matriculado em escola pública. Literato mais que dedicado. Revisor competente.
Mestre da língua portuguesa. Companheiro de Carolina, musa em verso na nascente do soneto em alvorada. Aprendiz de uma cidadania versejada em Crisálidas, (1864).
Contos fluminenses, (1870) além das páginas de um jornal. Histórias da meia-noite, (1873) com hífen e com estilo gramatical. Várias Histórias, (1896) de um mesmo universo literário.
Ela, (1855) em poema inicial. Papéis Avulsos, (1882) que engrandecem o conto nacional além de um pavilhão imortal. Histórias sem Datas, (1884) durante e depois de um domínio imperial.
Várias Histórias, (1896) na visão de um cosmopolita urbano. Páginas Recolhidas, (1899) no mesmo tempo do levante republicano. Relíquias da Casa Velha, (1906) de um século que também não passou em brancas nuvens no firmamento estrelado.
O primeiro romance: Ressurreição (1872). O segundo romance: A mão e a luva, (1874). O terceiro romance: Helena, (1876). O quarto romance: Iaiá Garcia, (1878). O quinto romance: Memórias Póstumas de Brás Cubas, (1881). O sexto romance: Quincas Borba, (1891). O sétimo romance: Dom Casmurro, (1899). O oitavo romance: Esaú Jacó, (1904). O nono romance: Memorial de Aires, (1908).
Luzes de uma ribalta mais que teatral: Hoje avental, amanhã luva, (1861). Desencantos, (1861). Queda que as mulheres têm pelos tolos, (1861). O caminho da porta, (1862). O protocolo, (1862). Quase ministro, (1863). Os deuses de casaca, (1885). Tu, só tu, puro amor, (1881).
Obra póstuma escrita com talento de quem fez da palavra ofício e profissão. Crítica, (1910). Teatro Coligido, (1910). Outras relíquias, (1921). Correspondência, (1932). A semana, (1914/1937). Páginas Escolhidas, (1921). Novas relíquias, (1932). Crônicas, (1937). Contos fluminenses, 2º. Volume (1937). Crítica literária, (1937). Crítica teatral, (1937). Histórias românticas, (1937). Páginas esquecidas, (1939). Casa Velha, (1944). Diálogos e reflexões de um relojoeiro, (1956). Crônicas de Lélio, (1958). Conto de Escola, (2002).
Antologia que não cessa de interceder nos caminhos de uma pátria poética por natureza. Obras Completas, (1936). Contos e crônicas, (1958).
Contos esparsos (1966). Edições críticas da obra de Machado de Assis, (1975). Contos: Uma Antologia, (1998).
Nove talentos: cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta.
“Mas suponhamos que acorde no final deste século ou no começo do outro; não terá visto uma parte da história, mas ouvirá contá-la, e melhor é ouvi-la que vivê-la.
Com poucas horas de leitura ou de oitiva, receberá notícia de que se passou em oito ou dez anos, sem ter sido nem atriz, nem comparsa, nem público. É o que nos acontece com os séculos passados.
Também ela nos contará alguma coisa.” (MACHADO DE ASSIS – A SEMANA).
“Cumpre ter idéias, em primeiro lugar; em segundo lugar expô-las com acerto; vesti-las, ordená-las, apresentá-las à expectação pública. A observação há de ser exata, a facéia pertinente e leve, uns tons mais carrancudos, de longe em longe, uma mistura de Geronte e Scapin, um guisado de moral doméstica e solturas da Rua do Ouvidor...
Há uma série de fatores, que a lei não substitui, e esses são o estado mental da nação, os seus costumes, a sua infância constitucional... Dizem os alemães que duas metades de um cavalo não fazem um cavalo. Por maioria de razão se pode dizer que metade de um cavalo e metade de um camelo não faz nem um cavalo e nem um camelo...
Inaugurei o meu sistema fundado no princípio de que o homem deve dizer tudo o que pensa. Se o meu vizinho pensa que é um pascácio, por que não há de escrevê-lo? Se eu cuido que sou um cidadão conspícuo e ilustrado, por que hei de calá-lo?
A verdade quer ofenda o meu vizinho quer me lisonjeie deve ser pública. Nua saiu ela do poço, nua deve ir às casas particulares.
Quando muito, põem-se-lhes umas pulseiras de ouro; em vez de dizer ilustrado, direi – profundamente ilustrado... Corações que sufocais em gérmen os mais belos adjetivos do mundo deixem que eles brotem francamente, que cresçam e apareçam, que floresçam, que frutifiquem! São os frutos da sinceridade...
Eia, corações medrosos, sacudi o medo, bradai que sois grandes e divinos. As primeiras pessoas que ouvirem a confissão de um desses corações retos, dirão sorrindo umas para as outras: - Ele diz que é nobre e divino. As segundas: - Parece que ele é nobre e divino. As terceiras: - Com certeza ele é nobre e divino. As quartas: - Não há mais nobres e divinos. As quintas: - Ele é o que é mais nobre e divino. As sextas: - Ele é o único que é nobre e divino. E tu descansarás nas sétimas, que amaciarão para ti o regaço absoluto...
Não sei se já alguma vez disse ao leitor que as idéias, para mim, são como as nozes, e que até hoje não descobri melhor processo para saber o que esta dentro de umas e de outras, - senão quebrá-las... Deusa eterna das ilusões, Maia, eterna Maia, entorna sobre mim a tua ânfora e conta-me o que não se passará hoje, nem amanhã, nem depois, nem segunda-feira...
Além de outras diferenças que se podem notar entre o Sol e a chuva, há esta – que o Sol, quando nasce, é para todos, como diziam as tabuletas de charutaria de outro tempo, e a chuva é só para alguns.
A mesma coisa acontece ao leitor, com a diferença que ele faz ou não faz nada se quer, e eu hei de pegar do papel e da tinta, e escrever para ai alguma coisa, tenha ou não vontade e assunto... Mas quem já viu neste mundo progresso sem sacrifício? Sangue que corre é fecundo, e há virtude que já foi vício. Cavalo que anda direito já foi bravio e inquieto; onça que morde um sujeito, talvez não lhe morda o neto. Vamos, pois, encomendemos onças, muitas onçazinhas, e nos quintais as criemos como se criam galinhas.”
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é poeta em Cuiabá.
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