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Causa e coisa pública

Olhos bem arregalados. Seguranças bem preparados. Bem público protegido. Patrimônio público bem cuidado. Capital de um Estado Federado. República vigilante pela ação integrada de três poderes constitucionais. Manchetes de jornais. Causa e coisa pública repletas de reincidências em nada ocasionais.

Algo além de uma praça com o parque infantil abandonado. Algo além de um beco mal iluminado na área central. Algo além de uma promessa firmada em palanque eleitoral. Um capítulo constitucional em direitos e garantias violadas. Mais de um boletim de ocorrência em mídia nacional. Mais de uma escola da rede pública estadual e municipal arrombada sem qualquer resistência civil ou militar.

Mais do que um desfalque certeiro no verbo ensinar. Mais do que uma sala de informática no alvo da roubalheira de plantão. Mais do que um ladrão mascarado. Mais do que um cidadão enquanto contribuinte lesado. O mesmo Estado despreparado no comando efetivo para a segurança enquanto dever institucional. Cuiabá, a mesma velha e lendária capital infestada do marginal cada vez mais infante, viciado, violento e cruel.

Enquanto isso, os legisladores e os governantes “negociam”. Vendem gatos por lebres. Edificam casebres. Desencadeiam greves. Privatizam sem qualquer consulta popular. Obra superfaturada denunciada além de uma rodovia em construção. Pacientes sem leitos para internações mesmo que emergenciais. Parlamentos silenciados em representações políticas e sociais. Palácios das pajelanças seladas em acordos em nada tribais.

Conflitos continuados em contenda partidária legendada pela corrupção diplomada em placa de metal. Conflitos de ordem urbana e rural. Conflitos em escala ambiental. Conflitos no círculo das incumbências legais. Conflitos administrativos fragmentados em pólos regionais inoperantes. Conflitos de uma cidadania refém do voto livre apurado em urna secreta e universal. Conflitos de uma democracia sem autoria assinada em pleito eleitoral. Conflitos de uma urbanidade em crescimento vertical e horizontal. Conflitos de uma calamidade sem orçamento federal. Conflitos de uma sociedade ameaçada pelos larápios nesta e naquela escola invadida em plena luz do dia. Conflitos herdados na ordem do dia com mais de um expediente com status de ineficiente e ineficaz. Gabinete do secretário municipal de educação fechado. Telefone do secretário estadual de segurança ocupado.

Quem responderá por mais essa causa pública em papel timbrado? Alarme desligado por mais de um ladrão procurado. A seguir cenas dos próximos conflitos adiados em solução. Coisa pública em questão. Bis ou refrão? Poesia sem partitura. Verso sem canção. Violeiro sem violão. Cantos dos capítulos republicanos elencados numa mesma Constituição.
Airton Reis é poeta em Cuiabá-MT. airtonreis.poeta@gmail.com

 

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