Mato Grosso recebeu R$ 1,288 bilhão em emendas parlamentares federais impositivas entre 2024 e 2025 - dinheiro que o próprio deputado escolhe para onde vai, sem depender de disputa no Congresso nem de vontade do Executivo. No único ano em que existe mapa municipal desse recorte, 2025, o estado recebeu R$ 664,5 milhões. Nove municípios da Região Oeste somaram, juntos, R$ 58,3 milhões. Isso representa apenas 8,8% do total, enquanto Cuiabá e Várzea Grande, sozinhas, levaram R$ 159,4 milhões - quase três vezes o que a região Oeste recebeu.
A desproporção fica mais nítida quando se olha cidade a cidade. Jaciara, muito menor que qualquer polo do Oeste, recebeu R$ 33,9 milhões. Nova Monte Verde, menor que Pontes e Lacerda, levou R$ 29,5 milhões. Pontes e Lacerda, que conta com 55 mil habitantes, a maior cidade da região depois de Cáceres, ficou com R$ 3,45 milhões. Não é 9%: é 0,5%. Isso não é uma questão de a região não ter demanda ou não ter projeto pronto para receber emenda; é uma questão de para onde o parlamentar decide, ano após ano, mandar o recurso que só ele controla.
Aqui é preciso dizer com todas as letras o que os números mostram: isso não é esquecimento. Esquecimento é falha, é lapso, é algo que se corrige na safra seguinte. Um padrão que se repete em R$ 1,288 bilhão, ano após ano, com a mesma região sistematicamente abaixo de 9%, não é distração, é escolha. É prioridade orçamentária deliberada, decidida linha por linha, indicação por indicação, por quem tem esse poder na mão.
E é uma escolha que contrasta com o outro lado da equação: o eleitoral. O Oeste vota, entra na carreata, aparece no santinho, é citado no discurso de palanque. Mas quando o voto vira orçamento, a emenda individual - que é o teste real de compromisso porque não depende de acordo político nem de sorte, somente da vontade de quem já foi eleito - a região sai da planilha. Se o Oeste vale voto na campanha, deveria valer indicação no orçamento. Do jeito que os números mostram, vale urna. Não vale prioridade.