Pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) participaram de um estudo que identificou, por meio de análises moleculares e filogenéticas, fungos associados à anomalia da soja registrada na região Médio-Norte de Mato Grosso. O problema afeta as lavouras e provoca perdas principalmente na qualidade dos grãos. Os resultados foram publicados na revista científica internacional Microbiology Research, especializada em microbiologia.
O início da pesquisa, que conta com a participação dos professores Solange Maria Bonaldo, Thiago Alexandre Santana Gilio e Márcio Roggia Zanuzo, considerou a safra 2019-2020, em que o volume de perdas foi superior a 30%.
Para a professora Solange Maria Bonaldo, o levantamento é fundamental para construir uma visão mais precisa dos microrganismos associados ao problema e, principalmente, para direcionar as próximas etapas da pesquisa. “A partir de plantas de soja que apresentavam sintomas de podridão de vagens e grãos (popularmente conhecida pelos produtores como anomalia), coletadas em áreas de produção de Mato Grosso e Rondônia, foram realizados o isolamento e a caracterização dos fungos presentes nos tecidos afetados. Para isso, foram utilizadas ferramentas laboratoriais e análises comparativas que permitiram determinar a quais grupos esses microrganismos pertenciam. Ao todo, foram avaliados 36 isolados, distribuídos em oito gêneros de fungos”, explica a professora Solange Maria Bonaldo.
A docente aponta que um dos principais desafios desse processo foi diferenciar um microrganismo oportunista, aquele que se desenvolve sobre um tecido que está doente ou debilitado, daquele que efetivamente participa do desenvolvimento da doença. “Por essa razão, essa primeira etapa foi conduzida de forma criteriosa, buscando estabelecer associações entre os fungos encontrados e os sintomas observados, sem, contudo, atribuir causalidade”, pontua a professora, acrescentando que o gênero chamou a atenção por incluir espécies relacionadas a doenças de importância agrícola em culturas como cacau e cupuaçu.
Segundo a professora, o achado abre novas perguntas científicas e aponta para a necessidade de aprofundar os estudos sobre sua relação com os sintomas observados na soja. “Essa etapa da pesquisa permitiu estabelecer uma base científica para compreender melhor o problema e indicou os caminhos que nossa equipe tem seguido nas investigações, buscando, contribuir para a solução do problema enfrentado pelos produtores rurais”, analisa a professora Solange Maria Bonaldo.
Diagnóstico e manejo são principais beneficiados
De acordo com a pesquisadora, a pesquisa abre perspectivas importantes para o cultivo da soja, “principalmente no que se refere ao diagnóstico e ao manejo de problemas fitossanitários emergentes”.
A professora Solange Maria Bonaldo conta que o objetivo é chegar a um diagnóstico correto no campo, permitindo compreender melhor o patossistema e, a partir desse conhecimento, identificar as melhores práticas de manejo da anomalia. “Quanto antes compreendermos a origem e os fatores envolvidos nesse problema, maior será nossa capacidade de desenvolver estratégias de monitoramento, prevenção e manejo, evitando que uma situação emergente se transforme em uma limitação maior para a produção de soja”, ressalta a professora ao enfatizar que os resultados obtidos neste estudo permitiram direcionar as etapas atuais da pesquisa.
O estudo continua sob condução da equipe com o aprofundamento dos estudos sobre a anomalia da soja e os agentes relacionados. “A expectativa é que esse conhecimento possa, futuramente, se transformar em informações e ferramentas que auxiliem o produtor na tomada de decisão, contribuindo para reduzir perdas, preservar a qualidade dos grãos e garantir maior segurança e sustentabilidade à produção de soja”, conta a professora.
Os caminhos de avanço para o estudo passam por investigar formas e momentos em que a doença se estabelece sobre a soja e em quais condições ambientais há mais possibilidade de ocorrência, assim como de formas o microrganismo sobrevive e se dissemina. “Também estamos investigando sua resposta a diferentes estratégias de controle, incluindo agentes de biocontrole e fungicidas, além da possibilidade de identificar fontes de resistência genética que possam contribuir, futuramente, para o desenvolvimento de estratégias mais eficientes de manejo da doença”, comenta a professora Solange Maria Bonaldo.