Uma auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) expôs o que a fiscalização local não impediu a tempo: as obras de pavimentação asfáltica em Cáceres (MT), financiadas com recursos do Convênio 910637/2021, foram executadas com falhas graves e sistemáticas. O relatório não fala em “pontos de melhoria”. Fala em patologias estruturais, ausência de elementos essenciais de drenagem e risco concreto de novo desembolso público para corrigir o que já foi pago.
As inspeções in loco, realizadas nos bairros Cavalhada I, Cavalhada II-III, Santa Izabel e Vila Irene, registraram um cenário repetido: trilhas de roda, trincas, buracos, erosões laterais e, principalmente, a falta de meio-fio e sarjeta em trechos extensos. Sem esses dispositivos, a água da chuva infiltra na base do pavimento e acelera sua destruição. Em vários pontos, bocas de lobo aparecem danificadas ou mal posicionadas. O resultado prático é o que os moradores já vivem: em vez de escoamento, alagamento.
A gravidade das constatações levou a própria CGU a recomendar a suspensão da execução da obra. Não se trata de uma sugestão genérica. É o reconhecimento de que continuar executando sob as mesmas condições representa risco de aprofundar o prejuízo.
O custo de corrigir o erro
Estimativas técnicas apontam que a recuperação dos trechos comprometidos e a complementação do que não foi feito (meio-fio, sarjeta e correção de drenagem) podem ultrapassar R$ 3 milhões. O valor chama atenção porque se soma ao montante já despendido com uma obra que, em grande parte, não atende aos padrões mínimos de durabilidade. Em outras palavras: o erário pode pagar duas vezes pelo mesmo serviço — a primeira vez mal feito e a segunda para tentar consertar.
Da poeira à água dentro de casa
O impacto não é apenas contábil. Durante a execução, a população dos bairros atingidos conviveu com poeira intensa, agravando quadros respiratórios, especialmente em crianças e idosos. Agora, com a obra parcialmente entregue e as falhas de drenagem expostas, o problema mudou de natureza: a água invade as residências. O que deveria representar melhoria da infraestrutura urbana transformou-se em fonte permanente de transtorno e risco à saúde.
Caso sob investigação
A situação já é objeto de investigação. O relatório da CGU foi produzido em resposta a requerimento de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), e o caso tramita também na esfera administrativa municipal. A Prefeitura de Cáceres rescindiu o Contrato Administrativo nº 294/2023, aplicou multa de R$ 1.442.278,94 à Ideal Construtora Ltda (CNPJ 63.737.159/0001-03) e instaurou procedimento para apurar danos ao erário, com proposta de declaração de inidoneidade da empresa.
A sequência é reveladora. Primeiro a poeira. Depois o alagamento. No meio, um relatório da CGU que documenta as falhas e recomenda parar. E, agora, a abertura de investigações para tentar esclarecer responsabilidades e recuperar o prejuízo.