A Justiça de Mato Grosso negou o pedido da defesa de Carlos Alberto Gomes Bezerra para instaurar incidente de insanidade mental e suspender o processo em que ele é réu pelo feminicídio da ex-companheira Thays Machado e pelo homicídio de Willian César Moreno. Com a decisão, proferida pela juíza Mônica Catarina Perri Siqueira, da 1ª Vara Criminal de Cuiabá, o julgamento pelo Tribunal do Júri fica mantido para esta terça-feira (21), às 9h, no Fórum da Capital. O pedido havia sido apresentado às vésperas da sessão, com base em parecer psiquiátrico e psicológico contratado pela própria defesa.
O documento apresentado pelos advogados foi produzido por profissionais de uma empresa particular de perícias, a partir de avaliação presencial feita em maio de 2023 e de reavaliação realizada por videoconferência em 1º de julho deste ano, com conclusões consolidadas em 7 de julho. Com base nele, a defesa sustentou que o réu não teria capacidade plena de compreender o caráter ilícito da conduta à época dos crimes e pediu a suspensão do processo, prevista no Código de Processo Penal para casos de dúvida sobre a integridade mental do acusado.
O Ministério Público se manifestou pelo indeferimento. Argumentou que, ao longo de toda a instrução criminal — incluindo a fase policial, em que o acusado foi normalmente interrogado, e a fase judicial, em que optou por permanecer em silêncio —, nunca foi alegada ou verificada qualquer anomalia psíquica. A promotoria apontou ainda que o pedido só surgiu depois do trânsito em julgado da pronúncia, em agosto de 2025, e às vésperas da sessão de julgamento.
A magistrada acolheu o entendimento da acusação. Considerou que o parecer particular, por si só, não é suficiente para instaurar o incidente, e que não há nos autos elementos concretos que indiquem dúvida razoável sobre a sanidade do réu ao tempo dos fatos ou no curso do processo.
A negativa se soma a uma sequência de recursos rejeitados nas últimas semanas. Em 15 de julho, o ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça, negou habeas corpus em que a defesa pedia a transferência do júri para outra comarca ou outro estado, sob o argumento de que a repercussão do caso e o fato de o réu ser filho do ex-deputado federal e ex-governador Carlos Bezerra comprometeriam a imparcialidade dos jurados. O ministro registrou que a comoção social e a cobertura da imprensa, isoladamente, não justificam o desaforamento.
Thays Machado, de 44 anos, e Willian César Moreno, de 30, foram mortos a tiros em 18 de janeiro de 2023, no bairro Consil, em Cuiabá. Segundo a denúncia do Ministério Público, o acusado perseguiu o casal desde o Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, até a capital, e efetuou os disparos em plena luz do dia, em área de intensa circulação de pessoas. A promotoria classificou o crime contra Thays como feminicídio praticado por motivo torpe, em contexto de violência doméstica e de gênero, decorrente da inconformidade com o fim do relacionamento. Pela morte de Willian, ele responde por homicídio qualificado.
O julgamento estava inicialmente marcado para 7 de julho e foi adiado a pedido da defesa. Na mesma ocasião, a Justiça derrubou o segredo de justiça que tramitava sobre a ação, acolhendo requerimento da promotoria, o que permitiu a presença de público na sessão. Cabe recurso da decisão que negou o incidente.e violência (Ligue 180).