O decreto que declarou calamidade financeira no Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande, assinado nesta quinta-feira (16) pela prefeita Flávia Moretti (PL), traz um dado que vai além da dívida acumulada: a autarquia deixou de cobrar R$ 158,8 milhões em créditos vencidos que nunca foram inscritos em dívida ativa. A informação consta do próprio texto do decreto, que reproduz um acórdão do Tribunal de Contas do Estado sobre as contas do departamento referentes a 2023. Não se trata de precatório nem de dívida herdada de terceiros, e sim de dinheiro que o DAE tinha a receber, ligado à prestação do serviço de água, e que não foi cobrado.
O valor aparece em uma lista de irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas nas contas de 2023, julgadas irregulares. Além dos créditos não cobrados, o documento cita déficit orçamentário de R$ 28,7 milhões no exercício, dívida de R$ 172,2 milhões com a concessionária de energia elétrica e passivo em precatórios de R$ 314 milhões. O conjunto desses números é usado pela prefeitura para justificar a declaração de calamidade e a necessidade de um plano de recuperação da autarquia.
A inscrição em dívida ativa é o procedimento pelo qual o poder público formaliza um crédito vencido e passa a poder cobrá-lo, inclusive na Justiça. Quando esse passo não é dado, o valor tende a envelhecer e, em parte, a prescrever, o que reduz a chance de recuperação. No caso do departamento de água, a ausência dessa cobrança significa que uma soma superior a R$ 158 milhões, que poderia ter reforçado o caixa da autarquia, ficou fora do alcance da administração.
Os números do departamento se referem ao exercício de 2023, quando o município era administrado por outra gestão e o DAE tinha outro presidente, o que afasta a atribuição da falha à administração atual. Ainda assim, o decreto assinado agora incorpora esse passivo como parte do diagnóstico da calamidade e determina que a autarquia apresente, em 60 dias, um plano de recuperação que inclua, entre outros pontos, a recuperação de créditos e o incremento da arrecadação, isto é, medidas voltadas justamente a cobrar o que não foi cobrado.