Nove casos de violência contra a mulher foram registrados em um intervalo de 7 horas em Mato Grosso. As ocorrências foram registradas entre 23h de sábado (21) e 6h deste domingo (22) e incluem casos de violência doméstica, psicológica, patrimonial e até tentativa de feminicídio.
Os agressores são, em sua maioria, companheiros atuais ou ex-parceiros das vítimas. Em um dos casos, uma avó pediu medida protetiva contra o neto, um adolescente de 15 anos.
Entre os registros, quatro casos envolveram companheiros atuais, quatro foram cometidos por ex-companheiros e um por um familiar, o neto da vítima.
- Marido agride esposa com socos no rosto e no abdômen
Um homem de 33 anos foi preso na manhã deste domingo (22), em
Alta Floresta, a 790 km de Cuiabá, suspeito de agredir a esposa, de 44 anos, durante uma discussão. Segundo a Polícia Militar, ele foi encontrado deitado no sofá da casa e admitiu ter agredido a vítima após um desentendimento.
De acordo com o relato da mulher, o suspeito saiu de casa à noite e foi encontrado por ela horas depois com outra mulher. Após retornar para a residência, ele a seguiu e passou a agredi-la com socos no rosto e no abdômen, além de puxar seus cabelos e danificar móveis. A vítima apresentava lesões aparentes, recusou atendimento médico e o suspeito foi encaminhado à delegacia para as medidas cabíveis.
- Ex-companheiro agride mulher e danifica móveis após encontrar mulher acompanhada
Um homem de 33 anos foi detido na madrugada deste domingo (22), em
Rondonópolis, a 215 km de Cuiabá, suspeito de agredir a ex-companheira, de 21 anos, e causar danos no quarto onde ela mora. Segundo a Polícia Militar, o caso ocorreu em uma quitinete, após o suspeito encontrar a vítima com outra pessoa.
De acordo com a jovem, o homem ficou alterado, quebrou um ventilador, danificou a cama e jogou objetos para fora do quarto. Durante a confusão, ele também deu um tapa no rosto dela. O suspeito afirmou que apenas retirava seus pertences. Ele foi encaminhado à delegacia para as providências cabíveis.
- Ex-companheiro invade casa e dispara arma de fogo
Um homem de 26 anos foi preso na madrugada deste domingo (22), em
Confresa, a 1.060 km de Cuiabá, suspeito de ameaçar a ex-companheira, de 30 anos, tentar invadir a casa dela armado e efetuar disparo de arma de fogo. Segundo a Polícia Militar, o caso começou após a vítima pedir ajuda ao relatar que o suspeito estava agressivo e tentava arrombar a porta do quarto onde ela se escondia.
De acordo com a vítima, o homem ainda danificou uma motocicleta com um facão e atirou, inclusive em direção a uma testemunha. Ele fugiu antes da chegada da polícia, mas foi localizado depois na casa dele. Com o suspeito, foram apreendidas munições e a arma foi entregue por ele aos policiais. O homem foi encaminhado à delegacia para as providências cabíveis.
- Ex-companheiro agride mulher com cadeira na cabeça após discussão
Um homem de 31 anos foi detido na madrugada deste domingo (22), em
Diamantino, a 182 km de Cuiabá, suspeito de agredir a ex-companheira, de 30 anos, durante uma discussão. A vítima foi atingida na cabeça com uma cadeira e precisou de atendimento médico.
Segundo relato da mulher, ela foi até a casa do suspeito após uma ligação, e os dois discutiram até a agressão. Já o homem afirmou que foi atacado primeiro e que a briga evoluiu para luta corporal, momento em que atingiu a vítima. Ele foi levado à delegacia, enquanto a mulher permaneceu em atendimento médico.
- Namorado empurra mulher no chão e a agride durante discussão
Um homem de 42 anos foi detido na madrugada deste domingo (22), em
Lucas do Rio Verde, a 332 km de Cuiabá, suspeito de agredir a namorada, também de 42 anos, e causar danos emocionais durante uma discussão no bairro Jardim Primavera. Segundo a Polícia Militar, a vítima relatou ter sido jogada no chão e agredida, além de sofrer ameaças e humilhações.
No local, os policiais encontraram a casa revirada, com objetos espalhados e um ventilador quebrado. A mulher apresentava lesões e afirmou estar com dores na mão e no peito. O suspeito disse que a vítima estava alcoolizada. Ambos foram encaminhados à delegacia para as providências cabíveis.
- Ex-companheiro invade casa e agride mulher
Um homem de 29 anos ficou ferido após ser atacado com uma faca pelo ex-companheiro na madrugada deste domingo (22), no bairro Jardim Iguaçu, em Rondonópolis, a 215 km de Cuiabá. Segundo a Polícia Militar, o suspeito invadiu a casa da vítima e tentou agredi-la.
De acordo com o relato, a vítima colocou a mão para se defender e acabou ferida. O suspeito fugiu após o ataque e não foi localizado. A vítima foi levada à delegacia para registro da ocorrência.
- Mulher é encontrada ensanguentada na rua após ser esfaqueada pelo companheiro
Uma
mulher de 42 anos foi esfaqueada pelo companheiro na noite de sábado (21), em
Paranatinga, a 411 km de Cuiabá, em um caso tratado como tentativa de feminicídio. Segundo a Polícia Militar, a vítima foi encontrada ensanguentada na rua e pediu socorro. O suspeito, de 35 anos, foi preso em seguida.
De acordo com o relato da vítima, o homem chegou em casa alcoolizado, a acusou de esconder a carteira e passou a quebrar objetos. Em seguida, pegou uma faca e a atacou, fazendo ameaças de morte. A mulher conseguiu se defender, mas sofreu um corte profundo na mão. Ela foi socorrida e levada ao hospital, enquanto o suspeito foi encaminhado à delegacia.
- Homem é preso após ameaçar a esposa e o filho com arma
Um homem de 44 anos foi preso na manhã deste domingo (22), em
Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá, suspeito de violência doméstica e porte ilegal de arma de fogo. Segundo a Polícia Militar, ele teria ameaçado a esposa, de 45 anos, e o filho com armas durante uma discussão. Com o suspeito, foram apreendidas uma pistola, um revólver e 40 munições.
De acordo com a investigação, o jovem quebrou móveis e danificou itens da residência, causando abalo emocional na vítima. Ele foi apreendido e, após o registro do caso, entregue ao responsável legal, enquanto a mulher recebeu atendimento e formalizou o pedido de proteção.
Ao
g1, a delegada
Ana Paula Reveles Carvalho, coordenadora da área de enfrentamento à violência contra a mulher da Polícia Civil, afirmou que Mato Grosso registrou 3.750 medidas protetivas em 2026, até o momento.
Em 2025, foram 18.223 pedidos, dos quais 2.418 foram descumpridos. As medidas protetivas de urgência são previstas na Lei Maria da Penha e servem para proteger mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. Elas podem ser solicitadas em casos de agressões físicas, psicológicas, morais, patrimoniais ou sexuais.
Após denúncia, a equipe da Força Tática foi até o bairro Manga e localizou o homem. Durante a abordagem, os policiais encontraram as armas na caminhonete e com o suspeito. Ele afirmou ter documentação, mas o revólver estava com a numeração raspada. O homem foi encaminhado à Central de Flagrantes com o material apreendido.
- Avó solicita medida protetivo contra adolescente de 15 anos
Uma mulher de 58 anos pediu
medidas protetivas após sofrer violência psicológica do neto, de 15 anos, em
Canarana, a 630 km de Cuiabá. Segundo a Polícia Civil, o adolescente foi apreendido após apresentar comportamento agressivo dentro de casa, com ameaças, gritos e destruição de objetos.
De acordo com o Observatório Caliandra, até o dia 17 de março deste ano, foram registrados mais de 8 mil casos de violência doméstica. Cerca de 2.987 casos foram de ameaça.
A medida protetiva pode ser feito pela vítima, de forma presencial ou online. O juiz tem até 48 horas para decidir. As medidas não têm prazo fixo e continuam válidas enquanto houver risco à vítima ou aos dependentes.
Mesmo assim, a delegada afirma que nem todas as vítimas pedem proteção. Segundo ela, os principais motivos são:
- dependência emocional;
- esperança de mudança do agressor;
- medo de represálias
- dependência financeira
Em alguns casos, a vítima também tenta preservar a família ou é desencorajada por pessoas próximas a formalizar a denúncia.
A polícia pode intervir em caso de violência doméstica?
A delegada ainda explicou que, em casos de violência doméstica, a polícia pode agir mesmo que a vítima não registre boletim de ocorrência ou peça medida protetiva.
"A maioria dos crimes praticados contra mulheres no contexto doméstico e familiar são de ação pública incondicionada, ou seja, a polícia não depende da vontade da vítima para agir, para iniciar a investigação", comentou.
Ao solicitar a medida, a vítima recebe atendimento com acolhimento, avaliação de risco e orientação sobre direitos e serviços disponíveis. Em casos mais graves, mesmo sem o pedido, a Polícia Civil pode adotar medidas para garantir a proteção e continuar a investigação. Em todos os casos, a vítima recebe orientação na delegacia sobre os serviços da rede de proteção.
"Informamos, principalmente, sobre a importância de interromper o ciclo de violência antes que ocorra a escalada das agressões.[...]", confirmou a delegada.
Algumas unidades no estado também contam com psicólogos e assistentes sociais para atendimento especializado.
O que a medida protetiva faz?
Segundo a delegada, a Justiça pode determinar:
- afastamento do agressor do lar;
- proibição de contato com a vítima;
- restrição de aproximação;
- proibição de frequentar determinados locais.
- suspensão da posse ou restrição do porte de arma de fogo.
Ao solicitar a medida, a mulher pode ser encaminhada para uma casa de abrigo. Também pode retirar pertences da residência onde vive com o agressor, com apoio da polícia. Outra possibilidade é o encaminhamento para a assistência social do município, onde pode receber acompanhamento psicossocial.
A vítima também pode ter os filhos transferidos para escolas próximas ao novo endereço, receber acompanhamento da Patrulha Maria da Penha e acesso a programas de apoio, como auxílio-aluguel.
Gabia Socorro da Silva, 38 anos
Estefane Pereira Soares, 17 anos
Estefane foi morta pelo próprio irmão, Marcos Pereira Soares, de 23 anos. Segundo a Polícia Civil, o irmão chegou ao local dizendo que precisava conversar sobre um assunto relacionado à mãe dele e a levou até a casa dele, onde cometeu o crime;
De acordo com a investigação, o corpo da vítima foi encontrado amarrado a uma pedra, em uma tentativa de mantê-lo submerso em um córrego. Por isso, o suspeito também foi autuado por ocultação de cadáver.
Em 2023, o suspeito foi condenado a 17 anos de prisão por homicídio, furto e ocultação de cadáver. No entanto, ele estava solto
após deixar a cadeia na semana anterior ao crime, possivelmente devido a um erro no cadastro de processos judiciais.
Simone da Silva Matiuzi, 35 anos
De acordo com as informações repassadas à polícia pelos socorristas que atenderam a vítima, o suspeito teria passado diversas vezes com o veículo por cima dela. Perto do local também foi encontrado um macaco de carro, que pode ter sido usado para atingir a cabeça de Simone.
Apenas um mês antes, a professora Luciene Naves Correia, de 51 anos, foi morta a tiros, na casa onde morava no Bairro Osmar Cabral, em Cuiabá. O principal suspeito do crime é o ex-marido da vítima, Paulo Neves Bispo, de 61 anos, contra quem ela tinha uma medida protetiva, segundo a Polícia Militar.
A PM informou que o suspeito pulou o muro e invadiu a casa da vítima enquanto ela tomava café da manhã. O crime teria ocorrido neste momento. Após atirar contra Luciene, o suspeito teria tentado atacar a própria filha. No entanto, ela conseguiu se trancar dentro de um quarto e não foi atingida.
Além delas, outras três mulheres foram mortas em Mato Grosso, vítima de feminicídio:
- Laila Carolina Souza da Conceição, de 29 anos - morta a facadas pelo cunhado, na casa onde morava após o irmão dele ter sido preso, no dia 11 de janeiro.
- Ana Paula Lima Carvalho, de 48 anos - morreu após passar 24 dias internada por ter sido esfaqueada pelo ex-genro da vítima, no dia 11 de janeiro.
- Jaqueline de Araújo dos Santos, de 40 anos - morreu após ser esfaqueada pelo marido enquanto pedia socorro à polícia, no dia 10 de fevereiro.
O aplicativo 'SOS Mulher MT' é uma das alternativas criadas para ajudar vítimas de violência doméstica em Mato Grosso. O aplicativo conta com um botão do pânico, por meio dele a vítima pode fazer um pedido de socorro quando o agressor descumprir a medida protetiva.
O Botão do Pânico virtual está disponível, por enquanto, nas cidades de Cuiabá, Várzea Grande, Cáceres e Rondonópolis.
Nos outros municípios do estado, a plataforma pode ser acessada para as outras funções, como direcionamento à medida protetiva online, telefones de emergência, endereços das Delegacias da Mulher, Plantão 24h, denúncias sobre violência doméstica e também acesso à Delegacia Virtual para registro de ocorrências.
O que é a Lei Maria da Penha
A Lei Maria da Penha foi sancionada em 7 de agosto de 2006 com o objetivo de criar mecanismos para prevenir e impedir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Segundo a Lei, a violência doméstica contra a mulher envolve qualquer ação baseada no gênero, ou seja, a mulher sofrer algum tipo de violência apenas pelo fato de ser mulher.
O Instituto Maria da Penha aponta que essa violência pode ser dos seguintes tipos:
- Violência física: qualquer ação que ofenda a integridade ou a saúde corporal da mulher. Exemplos: espancamentos, estrangulamento, cortes, sacudidas, entre outros;
- Violência psicológica: qualquer ação que cause dano emocional e diminuição de autoestima; prejudique e perturbe o desenvolvimento da mulher ou tente degradar e controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões. Exemplos: ameaça, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição, entre outros;
- Violência sexual: qualquer ação que obrigue a vítima a presenciar, manter ou participar de relação sexual não desejada. Exemplos: estupro, impedir uso de contraceptivos, forçar prostituição, entre outros;
- Violência patrimonial: qualquer ação que configure retenção ou destruição de objetos, instrumentos de trabalho, documentos, bens e valores da vítima. Exemplos: controle do dinheiro, destruição de documentos, estelionato, deixar de pagar pensão alimentícia, entre outros;
- Violência moral: qualquer ação que configure calúnia, difamação e injúria. Exemplos: acusar a mulher de traição, expor a vida íntima, desvalorizar a vítima pelo seu modo de se vestir, entre outros.