Cardumes de todas as espécies de peixes que compõem a fauna ictiológica do Rio Paraguai e de seus afluentes estão morrendo nas últimas 72 horas no município de Cáceres (a 210 km de Cuiabá).
Imagens com os peixes mortos flutuando circulam nas redes sociais da região, gerando preocupação e tristeza entre moradores e ambientalistas.
O Fenômeno da decoada
O fenômeno conhecido como “decoada” ou “dequada”, conforme o regionalismo local, ocorre tradicionalmente no período de cheias no Pantanal. No entanto, desta vez, a intensidade do evento está sendo avassaladora, superando as expectativas e causando um impacto sem precedentes.
Nos meses de dezembro até meados de fevereiro, o nível do Rio Paraguai se manteve abaixo de três metros, um patamar relativamente baixo. Contudo, desde a segunda quinzena de fevereiro, o volume de águas provenientes das intensas precipitações fez elevar drasticamente a altura do Rio, com as águas invadindo as áreas de matas ciliares.
Esse avanço repentino das águas arrastou para o leito do Rio Paraguai grande quantidade de restos de madeiras e matéria orgânica que estavam acumulados nas margens. Ao se decompor, essa vasta quantidade de material reduz drasticamente a oxigenação das águas, criando um ambiente inóspito para a vida aquática. Este processo provoca a mortandade de centenas de milhares de peixes numa longa extensão dos rios do Pantanal.
Cáceres, município situado na cabeceira da Planície Pantaneira, é por consequência natural o mais afetado por este fenômeno. A localização estratégica da cidade a torna particularmente vulnerável aos impactos da decoada.
O desabafo de um guia turístico
O influenciador e guia turístico José do Carmo, que possui um rancho à margem do Rio Paraguai, a poucos quilômetros da área urbana, lamentou profundamente o desastre. Ele chegou a filmar espécies de pintados, jaús e cacharas – peixes de grande valor ecológico e econômico – buscando desesperadamente oxigênio no barranco próximo à sua habitação.
“É triste ver essa situação, sem poder fazer nada. É um fenômeno natural sem que haja maneiras de frear essas mortes tanto das espécies nobres quanto de outras que também são importantes na composição dos cardumes”, desabafou José do Carmo, expressando a impotência diante da força da natureza.
De vários pontos da cidade, pode-se observar uma expressiva quantidade de peixes sem vida boiando ao longo do leito do rio, um cenário desolador que choca a população local.
Abrangência e consequências do fenômeno
O fenômeno da decoada não se restringiu apenas ao Rio Paraguai. Ele também atingiu as baías adjacentes ao rio, bem como pegou em cheio o Rio Jauru, importante afluente do Paraguai, que desemboca no Rio Paraguai nas proximidades das Fazendas Barranco Vermelho e Descalvados.
A decoada acaba comprometendo parte importante do ciclo reprodutivo dos cardumes, o que pode ter impactos a longo prazo na população de peixes da região. Além disso, o fenômeno afeta diretamente os moradores ribeirinhos que dependem da pesca de subsistência para sua alimentação diária e sobrevivência, agravando a situação social e econômica dessas comunidades.