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08/02/2026 - 12:40

Assassinado Enquanto Dormia: A Noite em Que Cáceres Perdeu Sua Humanidade

Por Marcelo Geraldo Coutinho Horn - Um cidadão Cacerense

Camarote, como era conhecido por todos, dormia na calçada.
Dormia onde a cidade passa apressada todos os dias, onde luzes se apagam e portas de banco se fecham. Dormia ali há anos. Mais de uma década fazendo parte da paisagem da Praça Barão. Não era um desconhecido. Era um rosto habitual, um sorriso fácil, um corpo que dançava engraçado quando a música ao vivo ecoava nos barzinhos da Praça Barão.

Era morador de rua.
Era dependente químico.
Era alcoólatra.

Mas era, antes de tudo, um ser humano, exatamente igual a qualquer um de nós.
Na madrugada, enquanto dormia indefeso na porta da Caixa Econômica Federal, foi brutalmente assassinado. Esfaqueado. A vida interrompida no chão frio que já era seu abrigo improvisado. O autor foi preso no mesmo dia. Alegou ter agido porque a vítima teria “mexido” com sua irmã.
Nada justifica uma brutalidade dessas.
Nada transforma incômodo em sentença de morte.

O que mais dói não é apenas a violência do golpe, mas a violência maior que já vinha sendo praticada há anos: a indiferença. Ele vivia à margem. Sobrevivia entre vícios, fragilidades e abandono. E ainda assim, era querido. Cuidava dos carros, cumprimentava as pessoas, dançava como quem ainda acreditava que a vida podia ter pequenos momentos de alegria.

Quantas vezes foi ignorado?
Quantas vezes foi tratado como problema e não como pessoa?

A dependência química é uma ferida social profunda. Não é defeito moral. Não é justificativa para desprezo. É um drama humano que exige cuidado, políticas públicas, acolhimento e responsabilidade coletiva. Quando alguém passa mais de dez anos dormindo na rua, não é apenas uma história individual de fracasso, é também um fracasso social.

Cáceres acordou indignada. E precisa permanecer assim.
Porque quando uma vida pode ser tirada com tanta brutalidade enquanto dorme, o que está em risco não é apenas a segurança dos que vivem nas ruas. É a nossa própria humanidade.

Hoje a Praça Barão parece mais vazia.

E talvez o silêncio que ecoa ali não seja apenas ausência, seja culpa.

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1 comentário

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  • por Jully Gay , em 08.02.2026 às 21:54

    Na verdade precisou acontecer uma tragédia para alguém do poder público ver a realidade. Cadê a assistência social que permitiu por anos aquela cena de abandono e descasos com a vida humana na frente de um banco oficial do governo federal. Sempre assim: depois da tragédia anunciada alguém resolve fazer Aquino que nunca fez quando necessário.

 
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