CPI das Obras: Câmara de Cáceres abre investigação sobre contratos públicos, obras paralisadas e possíveis irregularidades na gestão municipal
A Câmara Municipal de Cáceres formalizou, nesta semana, a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar um conjunto de obras públicas marcadas por atrasos, abandono, baixa qualidade de execução e possíveis irregularidades em contratos com empreiteiras e fornecedores. Batizada de “CPI das Obras”, a comissão nasce com apoio de parlamentares da oposição e levanta um dos debates mais sensíveis do cenário político local: a relação entre obras públicas e interesses eleitorais.
🔍 Por que a CPI foi aberta?
A proposta foi protocolada pelo vereador Jerônimo Gonçalves (PL), que conseguiu as cinco assinaturas necessárias para a abertura formal da CPI. Apoiaram o pedido os vereadores Elis Enfermeira (PL), Pastor Júnior (PL), Cézare Pastorello (PT) e Flávio Negação (MDB).
Segundo o grupo, o objetivo é apurar possíveis fraudes, superfaturamento, abandono proposital e má gestão em obras que deveriam ter sido entregues ainda em 2023 ou no início de 2024 — muitas delas iniciadas às vésperas das eleições e paralisadas logo após o pleito municipal.
“Não estamos fazendo política. Estamos fazendo o que o povo espera da gente: fiscalização. Dinheiro público precisa ser respeitado”, disse Jerônimo em plenário.
🚧 Obras citadas: da Feira ao Posto de Saúde
Entre os principais alvos da CPI estão:
A estrutura metálica da Feira Municipal, que foi montada às pressas durante a campanha eleitoral de 2024, mas segue inacabada e sem cobertura adequada.
A reforma da Praça da Feira, que virou símbolo de abandono e alvo de denúncias por suposto uso de material de baixa qualidade.
A construção de postos de saúde e salas de atendimento, com contratos assinados e repasses feitos, mas que ainda não saíram do papel ou foram interrompidos após poucas semanas de obra.
🧾 Contratos sob suspeita
Os vereadores pretendem levantar todos os contratos firmados entre a Prefeitura e empreiteiras envolvidas nas obras investigadas, incluindo:
Planilhas de custos
Cronogramas de execução
Termos aditivos
Relatórios de fiscalização da Secretaria de Obras
Notas de empenho e pagamentos efetivados
Segundo os autores do requerimento, alguns contratos teriam sido alterados por aditivos suspeitos, aumentando valores sem justificativa técnica transparente.
🗣️ A reação da base governista
A proposta de CPI gerou atrito entre os parlamentares. Vereadores da base da prefeita Eliene Liberato Dias, como Rubens Macedo e Valdeníria Dutra, se posicionaram contra a comissão, afirmando que “o papel fiscalizador da Câmara já é feito nas comissões permanentes” e que uma CPI poderia ser usada como instrumento político em ano pré-eleitoral.
Apesar das críticas, a legalidade do pedido foi reconhecida pela presidência da Casa, que agora dará andamento ao rito de instalação, definição dos membros e cronograma dos trabalhos.
🧮 O que diz a legislação?
A CPI está amparada pela Lei Orgânica Municipal e pelo Regimento Interno da Câmara, que exigem:
Assinatura de 1/3 dos vereadores (mínimo de 5 dos 15)
Objeto de investigação claro e definido
Duração de até 120 dias, prorrogáveis por mais 60
Apresentação de relatório conclusivo ao final, com possíveis pedidos de responsabilização civil, administrativa e criminal
📊 Dados e gráficos de execução orçamentária
Nos dois últimos anos, Cáceres empenhou cerca de R$ 18 milhões em obras e reformas, segundo o Portal da Transparência. Deste total, aproximadamente R$ 5,6 milhões correspondem a obras com execução inferior a 50%, e R$ 2 milhões sequer iniciaram, apesar dos contratos estarem firmados e os empenhos registrados.
Um levantamento preliminar da própria Câmara aponta que pelo menos 12 obras estão paralisadas ou com execução parcial, entre elas:
Obra Situação Valor estimado
Reforma da Feira Paralisada R$ 890.000
Cobertura da estrutura metálica R$ 720.000
Unidade Básica de Saúde – Cohab Paralisada R$ 1.150.000
Escola no Distrito do Limão Iniciada e parada R$ 970.000
🔎 E agora?
Nos próximos dias, será definida a composição da comissão investigativa, com três membros titulares e dois suplentes, e será elaborado um plano de trabalho com prazos para:
Solicitação de documentos
Convocação de testemunhas e técnicos
Visitas técnicas aos canteiros de obras
Audiências públicas
A expectativa é que as primeiras diligências ocorram ainda em julho, com foco nos contratos da Secretaria de Obras e da Secretaria de Finanças.
⚖️ CPI como divisor de águas
A CPI das Obras pode se tornar um divisor de águas na política cacerense. Caso comprove irregularidades, poderá não apenas responsabilizar gestores e fornecedores, como comprometer politicamente a atual administração, às vésperas das eleições de 2026. Por outro lado, se não houver materialidade, a CPI poderá reforçar a tese do governo de que as críticas têm viés político.
De um modo ou de outro, o contribuinte cacerense espera apenas uma coisa: transparência.