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06/06/2025 - 22:29

“Canetinhas emagrecedoras” dobram risco de doença que pode levar à cegueira, alerta estudo

Medicamentos GLP-1, usados para diabetes e perda de peso, são associados a aumento significativo de degeneração ocular grave entre idosos

Por Paloma Oliveto

Um novo estudo feito no Canadá acendeu o alerta sobre o uso das famosas “canetinhas emagrecedoras” — medicamentos usados no controle do diabetes tipo 2 e para perder peso. A pesquisa revelou que **idosos que usam esse tipo de remédio podem ter o dobro de risco de desenvolver uma doença nos olhos chamada degeneração macular neovascular relacionada à idade (nAMD), que pode causar cegueira.

A investigação analisou os prontuários de mais de 139 mil pessoas com diabetes, todas com mais de 66 anos, e comparou os que usavam esses medicamentos por pelo menos seis meses com os que nunca usaram. O resultado: 0,2% dos que usavam desenvolveram a doença ocular, enquanto só 0,1% dos que não usavam tiveram o problema. Embora o número pareça pequeno, o risco relativo mais do que dobrou.

O estudo foi publicado na respeitada revista médica Jama Ophthalmology e liderado por pesquisadores da Universidade de Toronto. Eles explicam que os GLP-1 RAs, como semaglutida (presente no Ozempic, por exemplo), podem causar mudanças na retina, principalmente por conta da queda rápida de açúcar no sangue, que afeta o funcionamento dos olhos.

Outro dado preocupante é que quanto mais tempo o paciente usa o medicamento, maior o risco: quem tomou por mais de 30 meses teve um risco 3,6 vezes maior de desenvolver a doença.

Por que isso pode acontecer?

Esses remédios imitam o GLP-1, um hormônio que ajuda a controlar a glicemia e o apetite. O problema é que esse hormônio também ativa partes da retina, podendo aumentar substâncias que fazem crescer vasos sanguíneos de forma descontrolada — o que causa a degeneração macular.

A doença nAMD afeta principalmente idosos e provoca crescimento de vasos na retina, que prejudica a visão de forma progressiva. A falta de oxigenação causada pela queda de glicose no sangue seria um dos gatilhos para o problema, dizem os cientistas.

Mas é motivo para parar de usar o remédio? Não.

A endocrinologista Vanessa Estival, da Clínica Hewa (Brasília), diz que o estudo não prova que o remédio causa a doença, mas sim que há uma associação que deve ser observada com mais cuidado.

Ela reforça que os benefícios dos medicamentos GLP-1 RAs continuam sendo muito maiores que os riscos, como o controle do açúcar no sangue, prevenção de problemas cardíacos e melhora da qualidade de vida. Segundo ela, a descoberta só reforça a importância do acompanhamento individual: “O médico precisa avaliar cada caso, especialmente em pacientes mais velhos e com histórico de problemas nos olhos”.

A oftalmologista Viviane de Oliveira Pereira, especialista em retina, também alerta que a queda rápida da glicemia pode prejudicar a retina, e que todo paciente que usa esse tipo de medicamento deve ser acompanhado por um oftalmologista durante o tratamento.

Ela lembra que isso já era observado em outros tratamentos para diabetes, como a insulina, que também pode piorar a visão se a glicemia cair muito de repente.

Outros estudos reforçam a ligação

Estudos anteriores já tinham apontado que medicamentos como a semaglutida podem causar alterações oculares, como:
 
  • Sustain-6 (2016): 3% dos usuários da semaglutida tiveram complicações na retina, contra 1,8% no grupo controle.
  • Pioneer-6 (2019): aumento de 0,8% na retinopatia diabética entre os usuários.
  • Estudo de 2024: revelou que 8,9% dos usuários da semaglutida tiveram um tipo de inflamação no nervo óptico, contra apenas 1,8% dos que não usaram.

O que fazer se você usa esses medicamentos?

Não pare de tomar por conta própria. Fale com seu médico, principalmente se você:
 
  • Já tem problemas de visão ou retinopatia diabética
  • É idoso ou diabético há muito tempo
  • Começou o tratamento recentemente e notou alterações visuais

Um acompanhamento regular com um oftalmologista pode ajudar a detectar precocemente qualquer problema e garantir o equilíbrio entre os benefícios e riscos do tratamento.

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