Notícias / Saúde
05/06/2025 - 21:26
Brasil comemora queda na transmissão do HIV, mas população ainda sofre com filas e falta de estrutura no SUS
Mesmo com redução da transmissão do HIV de mãe para filho, brasileiros continuam enfrentando dificuldades para acessar serviços de saúde pública
Por Talita de Souza
Walteron Rosa
O Brasil conseguiu reduzir as taxas de transmissão do HIV de mãe para filho — a chamada transmissão vertical — e de infecção em crianças nos últimos dois anos. Agora, o governo quer comemorar, dizendo que o país está perto de conseguir, pela primeira vez, a certificação internacional de eliminação da transmissão vertical do HIV. Em 2023, a taxa de transmissão foi inferior a 2%, e a incidência em crianças ficou abaixo de 0,5 caso por mil nascidos vivos.
Esses dados foram levados pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, à Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS) nesta terça-feira (03/06), durante a abertura de um grande congresso sobre doenças sexualmente transmissíveis, no Rio de Janeiro. O ministro exaltou o feito: “Nunca imaginei que chegaríamos a um momento como este, em que o Brasil entrega a documentação para a certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV”.
Porém, enquanto o governo comemora, a realidade da população mais pobre segue sendo marcada por longas filas, falta de médicos e dificuldade de acesso ao tratamento. O próprio ministro reconheceu a necessidade de reforçar programas como o "Agora Tem Especialistas", lançado para tentar reduzir as filas gigantescas por consultas, exames e cirurgias no SUS.
O governo federal apresenta esses avanços como parte do programa Brasil Saudável, que promete eliminar até 2030 a transmissão vertical de doenças como HIV, sífilis, hepatite B, doença de Chagas e HTLV. Mas quem depende do SUS sabe: conseguir atendimento ainda é um desafio, e muitas gestantes sequer conseguem realizar todos os exames a tempo.
Apesar das conquistas, os números mostram que a estrutura ainda é frágil. A taxa de mortalidade por aids caiu para 3,9 óbitos em 2023, a menor desde 2013. Além disso, mais de 95% das gestantes foram testadas para HIV no pré-natal. Mas isso não significa que a qualidade do atendimento tenha melhorado na ponta. Muitas mulheres continuam sem o acompanhamento adequado, principalmente em regiões afastadas.
O governo reforça a distribuição da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), que já conta com mais de 184 mil usuários no SUS. Embora seja importante, a PrEP ainda não chega a todos que precisam, especialmente quem vive nas periferias e áreas rurais.
O Ministério da Saúde também fala em expandir testagens com o teste rápido "duo", que detecta HIV e sífilis ao mesmo tempo. A intenção é boa, mas na prática muitas unidades de saúde não têm esses testes ou faltam profissionais para aplicá-los.
O Brasil também criou um processo de certificação para estados e municípios que eliminam a transmissão vertical. Até agora, 151 municípios e 7 estados conseguiram alguma certificação. Para 2025, o governo promete mais 70 municípios e 10 estados com o selo. Porém, especialistas alertam que muitas dessas certificações não refletem a verdadeira situação das cidades, onde o acesso aos serviços de saúde segue precarizado.
Antes do congresso, o ministro visitou hospitais no Rio para fortalecer o "Agora Tem Especialistas". Ele afirmou: “Estamos integrando dados, otimizando recursos e articulando parcerias...”. Mas, para quem está na fila do SUS, esperando meses ou até anos por atendimento, essas palavras soam distantes. O povo quer menos discurso e mais médicos nos postos.
Enquanto o governo fala em certificações e congressos, milhões de brasileiros seguem enfrentando a dura realidade: falta de estrutura, demora nos atendimentos e dificuldades no tratamento. A redução da transmissão do HIV é uma vitória importante, mas ainda há muito o que melhorar para que todos tenham acesso digno à saúde.