03/06/2025 - 21:13 | Atualizado em 03/06/2025 - 22:08
Free Shop em Cáceres vira polêmica e pode acabar antes mesmo de começar
Enquanto governo e prefeitura celebram loja franca, população sofre com saúde precária e abandono
Por Redação Jornal Oeste
Ronivon Barros
O governador de Mato Grosso, Mauro Mendes, chega nesta quarta-feira (4), em Cáceres, para assinar a Lei Estadual que autoriza o funcionamento da primeira loja franca (Free Shop) do município. O evento será realizado às 7h30, na Casa do Daveron, sede da Secretaria Municipal de Turismo e Cultura. Enquanto governo e prefeitura fazem festa, a população questiona: para quem realmente serve esse Free Shop?
O governo promete que a medida vai impulsionar a economia e transformar Cáceres num polo de compras com produtos importados e livres de impostos, seguindo o modelo de outras cidades de fronteira. Porém, muitos moradores e especialistas duvidam que essa novidade traga benefícios reais para quem mais precisa.
O anúncio foi feito por Mauro Mendes no último dia 12 de maio, após reunião com a prefeita Eliene Liberato Dias, vereadores, empresários e representantes da OAB e da Igreja. “Ouvindo a prefeita, vereadores, deputados, o padre, comerciantes, OAB, vemos que a região Oeste começa um despertar. Fizemos uma análise criteriosa dessa questão e vamos autorizar sim o Free Shop", disse o governador na ocasião.
Segundo ele, a posição estratégica de Cáceres, como cidade-gêmea de San Matías, na Bolívia, foi fundamental para o avanço do projeto. “E como prometido, estarei aí nesta quarta-feira (04) para, enfim, assinar a Lei”, reforçou Mendes.
A prefeita Eliene Dias comemorou a autorização e afirmou: “Essa loja franca vai mudar o perfil de Cáceres. Já somos polo de saúde, educação e turismo, e agora, com essa novidade, vamos atrair cada vez mais visitantes, que poderão unir lazer e compras em nosso município”.
Mas a fala da prefeita gerou indignação entre muitos moradores, especialmente quando ela insiste em dizer que Cáceres é um “polo de saúde”. A realidade é bem diferente: a cidade sofre há anos com hospitais superlotados, falta de médicos, exames que demoram meses para serem realizados e unidades básicas de saúde funcionando de forma precária ou até mesmo fechadas, pessoas morrendo por desleixo de uma gestão péssima. O que se vê, segundo os próprios moradores, é um verdadeiro descaso com a saúde pública, forçando muitos a se deslocarem para outras cidades ou a recorrerem a serviços particulares que não cabem no bolso da maioria.
O novo Free Shop é apresentado como “uma virada de chave para a economia local”, segundo a prefeita: “É um projeto transformador. Vai fomentar setores como hotelaria, gastronomia, turismo, gerar empregos e movimentar toda a região”, completou. Mas a população pergunta: que adianta ter um Free Shop se não há um hospital que funcione decentemente?
Outro ponto polêmico é a taxa de 5% prevista na lei, que criará o Fundo de Apoio às Ações Sociais de Mato Grosso (FUS/MT). Segundo especialistas, essa cobrança vai inviabilizar a instalação das lojas francas em Cáceres, afastando investidores e transformando o projeto numa nova “ZPE”: uma promessa vazia, que nunca saiu do papel.
A confusão aumentou quando a prefeita publicou em suas redes sociais que o governador viria para assinar um decreto do Free Shop. Porém, no convite oficial da Prefeitura consta que será assinada a Lei. Se for mesmo um decreto, como a prefeita indicou, será um sinal de que a pressão popular venceu o governador, os deputados e até a própria prefeita, que sempre defendeu a taxação.
Por trás das comemorações oficiais, o que se vê é uma população preocupada, temendo que o Free Shop sirva apenas para gerar discurso político, sem resolver os problemas mais urgentes da cidade, como saúde, educação e segurança.
Enquanto os políticos aparecem sorrindo para as fotos, quem continua sofrendo é o povo de Cáceres, que clama não por uma loja de importados, mas por hospitais decentes, escolas estruturadas e empregos dignos.