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13/05/2025 - 21:15 | Atualizado em 13/05/2025 - 21:59
A tendência dos bebês reborn: entre hobby, controvérsias e questões psicológicas
Bonecos realistas despertam tanto fascínio quanto estranhamento, gerando debates sobre saúde mental e terapia, mas também servindo como forma de arte e lazer
Por Gabriella Braz
Reprodução
Nos últimos tempos, o universo das redes sociais tem sido invadido por uma tendência curiosa: os bebês reborn. Esses bonecos artesanais, que reproduzem de forma impressionante a aparência de bebês reais, têm se tornado populares entre adultos, especialmente mulheres, que os colecionam, cuidam e compartilham suas rotinas nas plataformas digitais.
Os reborns são fabricados com materiais especiais para simular a pele e o cabelo de um bebê, e têm se tornado objetos de desejo e hobby para diversas pessoas, que cuidam deles como se fossem bebês de verdade, inclusive postando fotos de "bom dia" e "comprei uma roupinha nova".
Apesar do encanto que esses bonecos provocam em muitos colecionadores, a comunidade reborn tem sido alvo de questionamentos e até ataques nas redes sociais, sendo acusada de irresponsabilidade e até de problemas emocionais. Alguns comentários sugerem que colecionadores podem estar buscando preencher uma lacuna afetiva, como se fosse um substituto para a maternidade.
Um dos nomes mais conhecidos dessa comunidade é Elaine Alves, de 37 anos, que se tornou símbolo da discussão após compartilhar experiências de preconceito. Conhecida como Nane Reborns nas redes sociais, ela relata um episódio em que foi criticada por passear com um de seus bebês reborn em um shopping. "Ela falou 'isso é coisa de gente que não tem o que fazer', eu falei para ela que não, que era o meu trabalho", conta Nane, que também utiliza os bonecos como forma de divulgar o trabalho de artesãs e ganhar comissões pelas vendas.
Elaine explica que seu interesse por reborns não está relacionado à maternidade frustrada, mas sim à sua paixão por bonecas e pelo processo artesanal envolvido na criação desses bebês realistas. Para ela, os bonecos exigem manutenção constante, e a rotina de cuidados é importante para preservar o valor e o realismo das peças.
A controvérsia do uso terapêutico
Algumas colecionadoras, no entanto, utilizam os bebês reborn com fins terapêuticos, especialmente no caso de mães que perderam filhos e buscam lidar com o luto. Embora isso seja comum, Nane aconselha que essa prática não seja uma tentativa de substituir o desejo de ser mãe. "Não compre um bebê reborn depositando essa vontade de querer ser mãe em cima da boneca, porque você vai se frustrar", alerta ela.
A psicóloga clínica Thais Costa também se posiciona contra o uso de bebês reborn como uma forma de lidar com o luto, pois acredita que isso pode adiar o processo de aceitação e prolongar o sofrimento. "Em vez de você fazer todo o processo do luto, você acaba permanecendo na fantasia de que aquele bebê está vivo", explica.
Arte e inclusão: o lado positivo dos bebês reborn
Para muitas colecionadoras, os bebês reborn não são apenas hobby, mas também uma forma de arte. A advogada Lara Rollemberg, colecionadora há mais de 10 anos, destaca o trabalho das artesãs que criam essas peças e como a personalização dos bonecos pode ser uma forma de inclusão, com modelos representando bebês de diferentes etnias e até com características como vitiligo ou síndrome de Down.
Lara também conta uma história emocionante de uma mulher com Alzheimer que passou a cuidar de um bebê reborn. "Ela passou de duas para seis horas do dia interagindo com a boneca, e isso a trouxe mais presença", lembra Lara, enfatizando o potencial terapêutico no contexto de lazer e inclusão.
Questões de gênero e o refúgio infantil
Outro ponto discutido por especialistas é o desafio social que as mulheres enfrentam ao manter hobbies considerados infantis na vida adulta. A professora Valeska Zanello, da Universidade de Brasília (UnB), explica que as mulheres são pressionadas a abandonar práticas associadas à infância para serem vistas como adultas. "Para a sociedade, é mais aceitável que os homens mantenham esses refúgios infantis", observa Zanello.
No entanto, ela observa que esse movimento pode estar crescendo, com mais mulheres resgatando objetos da infância como uma forma de se reconectar consigo mesmas e com sua saúde mental.
Conclusão
Os bebês reborn são, sem dúvida, um fenômeno que gera tanto fascínio quanto estranhamento. Seja como uma forma de expressão artística, hobby ou até mesmo um recurso terapêutico, o crescente movimento ao redor desses bonecos questiona normas sociais, gera debates sobre saúde mental e desafia as percepções tradicionais de adultitude e maternidade.