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06/05/2025 - 21:14 | Atualizado em 09/05/2025 - 23:29

Diagnósticos de autismo crescem no mundo e refletem mudanças culturais e clínicas

Estudos apontam que o aumento nos casos de autismo está ligado à ampliação dos critérios diagnósticos, maior conscientização e inclusão de grupos antes negligenciados

Por Simon Maybin e Michael Blastland

Luke Nugent Studios

 (Crédito: Luke Nugent Studios)
Você talvez já tenha visto vídeos nas redes sociais com títulos como “cinco sinais de que você pode ser autista” ou ouvido falar das filas de espera para diagnóstico. Também talvez saiba — ou sinta — que o número de pessoas consideradas autistas tem aumentado rapidamente. Mas o que está por trás desse crescimento e o que ele realmente significa?

Para entender esse fenômeno, é essencial saber exatamente o que está sendo contado. Para que uma pessoa receba o diagnóstico de autismo, é necessário apresentar “dificuldades persistentes na vida social e na comunicação social”, conforme os critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), explica Ginny Russell, professora associada de psiquiatria na University College London (UCL) e autora do livro The Rise of Autism. Essas dificuldades podem variar desde problemas para manter uma conversa até ausência completa de fala. Um segundo grupo de critérios envolve interesses restritos e comportamentos repetitivos, como abanar as mãos, seguir rotinas rígidas ou balançar o corpo repetidamente.

Russell liderou um estudo baseado em dados de cerca de 9 milhões de pacientes no Reino Unido e observou que, entre 1998 e 2018, houve um aumento de oito vezes nos diagnósticos de autismo. “Foi um aumento enorme”, diz ela. “Melhor descrito como exponencial.” Embora faltem dados em muitas regiões do mundo, países de língua inglesa e da Europa também mostram elevações semelhantes.

Contudo, esse crescimento estatístico não significa necessariamente que há mais pessoas autistas no mundo, mas sim que mais pessoas estão sendo diagnosticadas — o que se deve, em grande parte, à ampliação da definição do transtorno ao longo das últimas décadas.

O autismo antes e agora

Originalmente descrito nas décadas de 1930 e 1940, o autismo era associado a crianças com grandes dificuldades de comunicação, muitas vezes não verbais. A partir dos anos 1990, o conceito foi expandido para incluir a síndrome de Asperger — indivíduos com linguagem fluente e inteligência típica, mas com dificuldades sociais. Também foi criado o diagnóstico de “transtorno invasivo do desenvolvimento sem outra especificação” (PDD-NOS), abrangendo casos menos típicos.

Hoje, todas essas categorias estão reunidas sob o termo transtorno do espectro autista (TEA). Essa reformulação ampliou significativamente a “rede diagnóstica”, incluindo perfis antes desconsiderados.

A inclusão de mulheres e meninas

Outro fator importante é a crescente inclusão de mulheres e meninas no espectro. Estudos mostram que os diagnósticos entre pessoas do sexo feminino têm aumentado mais rapidamente do que entre os homens. Sarah Hendrickx, autora e especialista em diagnóstico, observa que hoje a maioria de suas pacientes são mulheres, o oposto do que via no início de sua carreira.

Ela própria foi diagnosticada na vida adulta e afirma que, por muito tempo, meninas autistas foram erroneamente rotuladas com transtornos como ansiedade, TOC ou transtorno de personalidade borderline. Uma explicação é que muitas delas são especialistas em “mascarar” seus comportamentos para se integrar socialmente.

Adultos também buscam diagnóstico

O número de diagnósticos em adultos cresceu ainda mais que entre crianças. Isso se deve à inclusão de pessoas com menor necessidade de apoio, sem deficiência intelectual ou atrasos na fala, cujos sinais costumam passar despercebidos na infância. Um estudo mostrou que, entre 2000 e 2018, os diagnósticos em pessoas com deficiência intelectual cresceram 20%, enquanto entre as sem deficiência o salto foi de 700%.

Para Ellie Middleton, criadora de conteúdo e autora autista com TDAH, isso é uma reparação histórica. Diagnosticada aos 24 anos, ela conta que chegou a um estado grave de sofrimento mental antes de receber apoio adequado: “Aos 17 anos, eu tomava a dose máxima de antidepressivos permitida para um adulto. Não podia ficar sozinha, não conseguia sair de casa”.

Representações e tensões

A popularização do autismo nas redes e na mídia também contribui para aumentar a visibilidade — mas não sem controvérsias. Para Venessa Swaby, responsável por grupos de apoio a famílias de autistas, a exposição de celebridades pode gerar uma imagem "glamourizada" do transtorno, enquanto pessoas com filhos não verbais, por exemplo, sentem-se invisibilizadas.

Com o aumento da diversidade dentro da comunidade autista, surgem debates sobre quem “tem direito” ao rótulo e qual o verdadeiro significado do diagnóstico.

O papel das causas ambientais

Com a explosão no número de diagnósticos, surgem também especulações sobre possíveis causas ambientais. Embora teorias como a ligação entre vacinas e autismo tenham sido desmentidas, ainda circulam rumores sobre influência da alimentação, da água ou do ar. No entanto, os estudos apontam que o principal fator do aumento é cultural e clínico — uma mudança na forma como o autismo é definido e diagnosticado.

Russell ressalta que fatores como idade avançada dos pais, prematuridade, infecções durante a gestação e complicações no parto podem ter influência, mas são responsáveis por uma parcela muito pequena dos casos.

“Sinceramente, acredito que a imensa maioria do aumento se deve ao que chamo de cultura diagnóstica”, conclui. “Nossa concepção do transtorno mudou — e isso é o que provocou o crescimento”.

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