06/05/2025 - 21:05 | Atualizado em 06/05/2025 - 22:26
Warren Buffett anuncia aposentadoria e encerra era histórica na Berkshire Hathaway
Aos 94 anos, o
Por Clara Assunção
Lucas Jackson
Warren Buffett, um dos investidores mais renomados e admirados do mundo, anunciou sua aposentadoria do cargo de CEO da Berkshire Hathaway, com saída prevista para o final de 2025. O anúncio oficial foi feito nesta segunda-feira (5), confirmando a surpreendente revelação feita por Buffett durante a tradicional reunião anual de acionistas da empresa no último sábado (3). Com 94 anos, Buffett encerra uma trajetória de mais de seis décadas à frente da companhia, período em que deixou uma marca profunda na história dos mercados financeiros.
Conhecido mundialmente como o "Oráculo de Omaha", apelido que faz referência à sua cidade natal em Nebraska, Buffett ficou famoso por sua filosofia de investimentos baseada em negócios sólidos, gestão competente e visão de longo prazo. Desde 1965, quando assumiu o controle da então decadente Berkshire Hathaway, uma fabricante de tecidos à beira da falência, ele conduziu a empresa à condição de conglomerado bilionário, avaliado hoje em cerca de US$ 1,1 trilhão.
A transformação da Berkshire é um capítulo emblemático do capitalismo americano. Buffett começou investindo em seguradoras, que forneciam recursos financeiros conhecidos como "float", e, com o tempo, expandiu os negócios para diversos setores. Hoje, o conglomerado detém participações expressivas em empresas como Apple (US$ 135 bilhões), Bank of America (US$ 35 bilhões), American Express (US$ 28 bilhões) e Coca-Cola (US$ 25 bilhões), além de ter aquisições integrais de companhias como a seguradora Geico, a fabricante Duracell e a rede de fast-food Dairy Queen.
Filho de um corretor da bolsa e congressista americano, Buffett cresceu em uma família de classe média alta em Omaha. Desde cedo, demonstrou interesse por finanças: aos 11 anos, comprou sua primeira ação e, aos 14, já havia adquirido um terreno agrícola com o lucro de pequenos negócios como venda de jornais e refrigerantes. Formou-se na Universidade de Nebraska e depois estudou na Universidade Columbia, onde foi aluno do lendário Benjamin Graham, considerado o "pai do value investing".
Após uma recusa inicial do próprio Graham para contratá-lo, Buffett retornou a Omaha para trabalhar na corretora do pai. Em 1954, mudou-se para Nova York e iniciou uma trajetória de sucesso ao lado de seu mentor. Pouco tempo depois, fundou sua própria empresa de investimentos, pondo em prática os princípios do value investing que viriam a guiá-lo por décadas.
A grande virada na carreira de Buffett ocorreu em 1965, com a aquisição da Berkshire Hathaway. O modelo de negócios que ele construiu a partir dali era simples, mas extremamente eficaz: investir em empresas com vantagens competitivas duradouras, gestão competente e bons preços de entrada. "Nosso prazo favorito de retenção é para sempre", costumava dizer. Com essa abordagem, gerou retornos constantes, que foram reinvestidos, criando o chamado efeito "bola de neve" – expressão que nomeia sua biografia, A Bola de Neve: Warren Buffett e o Negócio da Vida.
Apesar de ser hoje a quinta pessoa mais rica do mundo, com patrimônio estimado em US$ 166,4 bilhões (cerca de R$ 931,8 bilhões, segundo a Forbes), Buffett sempre levou uma vida discreta. Mora na mesma casa desde 1958, nunca comprou iates ou mansões, e manteve quase toda sua fortuna em ações da Berkshire.
Ele também é conhecido por sua filantropia: já doou aproximadamente US$ 60 bilhões, principalmente em ações da Berkshire, à Fundação Bill & Melinda Gates e a fundações familiares. Em 2010, lançou o movimento Giving Pledge, ao lado dos Gates, que convida bilionários a destinarem ao menos metade de suas fortunas a causas sociais. No seu caso, o compromisso é doar 99% do patrimônio.
Buffett também se destacou por suas posições políticas. É um dos poucos bilionários a defender a taxação de grandes fortunas, afirmando, por exemplo, que “sua secretária paga mais impostos do que ele”. Em 2023, a Berkshire pagou US$ 5 bilhões em impostos federais, valor que, segundo ele, foi o maior já pago por uma empresa nos Estados Unidos. “Não me incomoda escrever esse cheque”, declarou em sua última carta aos acionistas.
Durante a convenção da empresa no último sábado, Buffett também se posicionou contra o protecionismo econômico e as tarifas comerciais defendidas por Donald Trump. “A prosperidade americana se deve a um mercado aberto e competitivo”, afirmou.
Com sua saída programada, encerra-se uma era marcada por disciplina, consistência e uma fé inabalável nos fundamentos do mercado. A história de Warren Buffett é mais do que uma trajetória de sucesso financeiro — é uma lição de paciência, princípios e visão de longo prazo.