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02/05/2025 - 20:05

Cera de ouvido pode revolucionar diagnósticos de doenças como câncer e Alzheimer

Pesquisadores descobrem que o cerúmen contém compostos que refletem alterações metabólicas ligadas a diversas enfermidades, oferecendo um método rápido, barato e não invasivo de diagnóstico

Por BBC News

Emmanuel Lafont

 (Crédito: Emmanuel Lafont)
Ela é alaranjada, grudenta e, para muitos, um tema desagradável. Mas a cera de ouvido — ou cerúmen, como é cientificamente chamada — está no centro de uma revolução silenciosa na medicina. Pesquisadores ao redor do mundo vêm demonstrando crescente interesse nessa substância corporal pouco estudada, que pode revelar muito sobre nossa saúde, incluindo indícios de doenças como câncer, diabetes, distúrbios metabólicos e até condições neurológicas como Parkinson e Alzheimer.

O cerúmen é formado por secreções das glândulas ceruminosas e sebáceas, combinadas a células mortas, pelos e outros detritos do canal auditivo. Esse material é lentamente transportado de dentro para fora do ouvido por um processo similar ao de uma esteira, levando cerca de um vigésimo de milímetro por dia.

Apesar de seu aspecto repulsivo, a cera tem uma função essencial: proteger, lubrificar e manter limpo o canal auditivo. Ela também funciona como barreira contra microrganismos e insetos. No entanto, por muito tempo foi negligenciada nos estudos científicos — algo que está mudando.

Pesquisas recentes revelam que a composição da cera do ouvido pode fornecer informações valiosas sobre o metabolismo de uma pessoa. Um exemplo curioso está no gene ABCC11, responsável pelas variações entre cerúmen seco e úmido. Enquanto a maioria das pessoas de origem europeia e africana tem cera amarela e pegajosa, 95% dos asiáticos do leste possuem cerúmen seco e acinzentado. Esse mesmo gene também está relacionado ao odor corporal das axilas.

Mas o valor diagnóstico da cera vai muito além da genética. Estudos indicam que doenças como a leucinose — conhecida pelo odor adocicado semelhante ao xarope de bordo — podem ser detectadas logo após o nascimento por meio do cheiro do cerúmen, graças à presença do composto sotolon. Para a química Rabi Ann Musah, da Universidade do Estado da Louisiana, isso representa uma forma mais barata e rápida de diagnóstico do que testes genéticos.

A cera também tem demonstrado potencial na detecção de infecções como a Covid-19, de distúrbios metabólicos como o diabetes tipo 1 e 2, e até de doenças cardíacas. Mais recentemente, Musah identificou biomarcadores na cera de ouvido associados à doença de Ménière — um distúrbio do ouvido interno que provoca vertigens e perda auditiva. A descoberta pode permitir diagnósticos mais rápidos e precisos dessa condição debilitante.

No Brasil, o químico Nelson Roberto Antoniosi Filho, da Universidade Federal de Goiás, lidera um grupo de pesquisa que desenvolveu o “cerumenograma” — um teste que analisa compostos orgânicos voláteis presentes na cera. Em 2019, os pesquisadores identificaram 27 substâncias capazes de indicar, com 100% de precisão, a presença de cânceres como linfoma, carcinoma e leucemia. O cerumenograma também demonstrou capacidade de detectar alterações metabólicas em estágios pré-cancerígenos, quando as chances de cura são muito maiores.

"Do ponto de vista metabólico, o câncer é um único processo bioquímico, e pode ser detectado em qualquer estágio por meio de compostos específicos", explica Antoniosi Filho.

Além disso, seu laboratório constatou que a cera do ouvido concentra uma diversidade química superior a outros fluidos corporais, como sangue ou urina, o que a torna ideal para monitoramento de doenças ao longo do tempo. O hospital Amaral Carvalho, em São Paulo, já utiliza o cerumenograma como ferramenta complementar no tratamento de câncer.

Musah também trabalha no desenvolvimento de um kit de teste rápido baseado em cera de ouvido, semelhante aos testes caseiros de Covid-19. Ela acredita que a análise da composição lipídica do cerúmen pode ajudar a compreender causas e tratamentos para doenças hoje sem cura.

Outros especialistas, como a professora Perdita Barran, da Universidade de Manchester, apontam que a cera do ouvido complementa informações do sangue, pois é rica em lipídios — substâncias que sofrem alterações precoces em diversas doenças.

“Ao estudar apenas o sangue, obtemos metade do quadro. Os lipídios, como os encontrados na cera do ouvido, são como os canários na mina de carvão: são os primeiros a reagir", afirma Barran.

Com avanços promissores, os pesquisadores esperam que, no futuro, o cerumenograma se torne um exame de rotina. Uma amostra simples de cera do ouvido poderá permitir diagnósticos precoces e eficazes de doenças complexas, de forma acessível e não invasiva.

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