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29/04/2025 - 21:21 | Atualizado em 02/05/2025 - 22:19

Espanha e Portugal vivem maior apagão da história e descartam ataque cibernético

Colapso sem precedentes paralisou transportes, comunicações e serviços básicos; investigações seguem sem conclusões, mas autoridades negam ação de hackers

Por BBC News

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 (Crédito: Reprodução)
Autoridades espanholas e portuguesas afirmaram nesta terça-feira (29) que não há indícios de que o apagão em larga escala registrado no dia anterior tenha sido causado por um ataque cibernético. Milhões de pessoas foram afetadas em ambos os países, e os impactos chegaram a partes da França e Andorra. As causas ainda estão sob investigação.

A operadora Red Eléctrica de España (REE) afirmou que dois eventos consecutivos causaram o colapso da rede elétrica, mas sem envolver erro humano. O diretor de serviços operacionais da empresa, Eduardo Prieto, destacou que a recuperação parcial do sistema foi possível após o primeiro incidente, mas que o segundo causou a interrupção completa do fornecimento. Segundo ele, turbinas a gás e vapor foram essenciais para o restabelecimento da energia. Há suspeitas sobre falhas na geração solar, embora nada esteja confirmado.

Apesar disso, o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez negou qualquer ligação entre a falha e a energia renovável. Ele afirmou que “isso não pode se repetir nunca mais” e prometeu reforçar a infraestrutura elétrica do país, além de exigir responsabilidade das operadoras privadas.

Na terça-feira, a maior parte do fornecimento de energia já havia sido restaurada, incluindo o funcionamento de subestações em Portugal e serviços de fibra óptica e telefonia, que voltaram em 90% da Espanha. O Aberto de Tênis de Madri, interrompido na segunda, foi retomado.

Mesmo com a normalização gradual, o estado de emergência permanece em vigor na Espanha. Estações de trem foram tomadas por passageiros frustrados e confusos. Aulas foram suspensas em várias regiões, e mais de 500 voos foram cancelados em toda a Península Ibérica.

Na segunda-feira (28), os líderes dos dois países pediram cautela diante de especulações. Luís Montenegro, premiê português, disse que “não há indícios” de ciberataque. Sánchez reforçou que todas as hipóteses ainda estão sendo investigadas. Na terça, a Suprema Corte da Espanha anunciou que abrirá uma investigação para apurar se houve crime cibernético ou ato de terrorismo.

Segundo a Eurelectric, associação europeia de empresas do setor, houve uma desconexão entre as redes de França e Espanha. Kristian Ruby, secretário-geral da entidade, classificou o evento como “muito, muito raro” e afirmou que, sozinho, o problema técnico não justificaria o apagão generalizado — indicando que outros fatores ainda não esclarecidos devem ter contribuído.

Relatos de quem viveu o caos são numerosos. A brasileira Nina Alves, que vive em Barcelona, contou que precisou caminhar por mais de uma hora para chegar em casa, em meio a transporte público paralisado e trânsito caótico. “Nem metrô, nem táxi, os ônibus estavam lotados. Cheguei em casa e fui direto à escola dos meus filhos, mas por sorte tinham gerador”, disse. Ela e a família acabaram se alimentando com pães e sucos já estocados, pois todos os mercados estavam fechados e só aceitavam dinheiro vivo.

Em Portugal, cenas semelhantes ocorreram. “Não saímos de casa, só para ir ao mercado. Estamos economizando bateria do celular e água”, relatou Laura Diniz, que vive no Porto. Como a maioria dos prédios depende de bombas elétricas para levar água aos andares superiores, muitos ficaram sem abastecimento.

Nos aeroportos, centenas de voos foram cancelados. A TAP, companhia aérea portuguesa, chegou a pedir que passageiros não se dirigissem ao aeroporto. Os trens foram paralisados, e cerca de 35 mil passageiros ficaram presos em mais de cem composições ferroviárias.

O colapso energético impactou ainda a demanda por gás, que caiu drasticamente na Espanha. O tráfego de dados em Madri caiu mais da metade, e operadoras de telefonia e internet relataram falhas massivas, embora data centers tenham mantido a operação graças a sistemas de backup.

As buscas pela palavra “apagão” no Google aumentaram dez vezes em cinco minutos e lideraram o ranking de termos mais pesquisados do dia, ultrapassando 5 milhões de buscas.

A Red Eléctrica relatou uma queda abrupta no consumo espanhol: de 25.184 para 12.425 megawatts em poucos minutos. Em Portugal, a demanda caiu 93%. Fora da Península, as Ilhas Canárias e Baleares não foram afetadas. A empresa francesa RTE forneceu 700 megawatts para auxiliar na recuperação.

A REN, operadora portuguesa, atribuiu preliminarmente o incidente a um “fenômeno atmosférico incomum” que teria provocado vibrações em linhas de altíssima tensão (400 kV) devido a variações extremas de temperatura.

O impacto foi amplo e inédito, atingindo todos os setores vitais: energia, telecomunicações, transporte e abastecimento. A Comissão Europeia, que recentemente recomendou que cidadãos mantenham “kits de sobrevivência” para 72 horas, viu seu alerta ganhar novo peso.

“Esse apagão aconteceu poucas semanas depois de a União Europeia mandar todo mundo comprar um 'kit guerra'. Tem muita gente assustada”, afirmou Nina Alves.

Casos de solidariedade também se multiplicaram. Em trens parados no interior da Espanha, moradores de vilarejos levaram água e alimentos para passageiros. “Ninguém está cobrando nada, as pessoas simplesmente vêm ajudar”, relatou Jonathan Emery.

O correspondente de cibersegurança da BBC, Joe Tidy, destacou que, embora seja tecnicamente possível que o apagão tenha sido causado por um ataque cibernético, é muito mais provável que tenha havido uma falha técnica complexa. “Se for um ataque, será algo sem precedentes na escala e no impacto”, afirmou.

O apagão de 28 de abril já é considerado o mais grave da história da Península Ibérica, e suas causas ainda estão longe de uma conclusão definitiva.

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