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29/04/2025 - 20:49 | Atualizado em 29/04/2025 - 20:57

Burnout: o colapso silencioso que afasta trabalhadores e desafia empresas

Relato de executiva revela impactos profundos do esgotamento profissional; especialistas alertam sobre sintomas, causas e estratégias de recuperação

Por Angela Henshall

Em 2020, Amy vivia o auge de sua carreira como executiva de marketing em uma das maiores empresas de saúde do mundo. Trabalhando sob intensa pressão, organizava um evento quando sentiu uma tontura repentina. "Pensei que estivesse desidratada ou mal alimentada, mas a sensação persistiu. A partir dali, tudo ficou confuso", relembra.

Com o tempo, surgiram outros sinais: zumbido constante, sensação de estar “bêbada em um barco” e episódios de desmaio no chuveiro. Incapaz de cuidar dos filhos ou de seguir sua rotina, Amy tirou uma licença médica. "Meu corpo gritava: Pare!", conta. Só mais tarde ela entendeu que vivia um caso clássico de burnout — um colapso físico e emocional causado por estresse crônico no trabalho.

O burnout é uma condição cada vez mais comum e perigosa, alertam especialistas. Para a professora Christina Maslach, da Universidade da Califórnia, pioneira na definição do termo, trata-se de uma resposta a estresses prolongados e mal gerenciados. "Não é uma condição médica em si, mas um problema relacionado ao ambiente de trabalho", explica.

A Organização Mundial da Saúde reconheceu oficialmente a síndrome em 2019, apontando sintomas como exaustão, distanciamento emocional e queda no desempenho profissional. Segundo a professora Heejung Chung, do King’s College London, a cultura de estar “sempre ligado” — intensificada pela digitalização — tem alimentado o aumento dos casos em todo o mundo.

E os números confirmam a tendência: só no Brasil, os afastamentos por burnout saltaram de 178 em 2019 para 421 em 2023 — um aumento de 136%, segundo o INSS. O Reino Unido, por sua vez, estima um prejuízo de mais de R$ 770 bilhões por ano devido à condição.

Estudos mostram que os principais fatores de risco incluem: carga excessiva de trabalho, falta de controle sobre tarefas, pouco reconhecimento, relações tóxicas no ambiente profissional, injustiça e conflitos de valores.

Além do cansaço, o burnout se revela também em sintomas mais sutis: desprezo pelo trabalho, visão negativa de si mesmo e desejo de fuga. “Já ouvi pacientes dizendo: ‘Queria pegar covid só para poder parar’”, relata a psicoterapeuta Claire Plumby.

As cinco fases do burnout:
 
  1. Lua de mel: motivação alta, mas com promessas excessivas e acúmulo de tarefas.
  2. Abandono: perda de interesse por atividades antes prazerosas e dificuldade de concentração.
  3. Desmotivação: apatia, distanciamento emocional e sensação de inutilidade.
  4. Burnout propriamente dito: esgotamento total, com dificuldades para manter a rotina.
  5. Colapso: quadro clínico grave, com crises de pânico, isolamento e meses de recuperação.

Como se recuperar: A professora Sabine Sonnentag, da Universidade de Mannheim, identificou que se "desconectar mentalmente do trabalho" ajuda a prevenir o esgotamento. A psicoterapeuta Claire Ashley, autora do livro The Burnout Doctor, propõe uma abordagem prática:
 
  • Recuperar controle sobre o trabalho
  • Cuidar do bem-estar físico e emocional
  • Fortalecer a rede de apoio

Ela recomenda o uso da "Esfera de Controle", de Stephen Covey, para identificar o que é possível mudar e o que precisa ser aceito. Além disso, destaca a importância de decisões alinhadas aos próprios valores, conforme sugere o psicoterapeuta Russ Harris: “Ficar e agir com propósito ou ficar e desistir”.

O burnout é um alerta do corpo e da mente, e exige atenção. Mais do que um simples cansaço, ele pode levar ao colapso total se não for tratado. A boa notícia é que a recuperação é possível — com apoio, autoconhecimento e mudanças graduais, como demonstram as histórias de Amy e de tantos outros que enfrentaram a exaustão e encontraram novos caminhos.

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