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11/04/2025 - 20:12 | Atualizado em 11/04/2025 - 20:34

Boicote global a produtos dos EUA cresce mesmo após recuo parcial de Trump

Campanhas locais, redes sociais e governos fortalecem reação ao tarifaço americano

Por Matthew Ward Agius e Arthur Sullivan

Apesar da suspensão parcial do chamado "tarifaço do Dia da Libertação", promovido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o boicote internacional aos produtos norte-americanos segue ganhando força em várias partes do mundo.

Mesmo com o alívio temporário nas medidas, os consumidores de países aliados tradicionais, como Canadá e nações da Europa, continuam promovendo campanhas para valorizar o consumo local. Essas ações se espalham tanto por meio das redes sociais quanto através de iniciativas no varejo físico.

O estopim foi dado em 2 de abril, quando Trump impôs uma tarifa generalizada sobre todas as importações para os Estados Unidos, além de sobretaxas direcionadas a países específicos sob a justificativa de "tarifas recíprocas". Posteriormente, em 9 de abril, o presidente suavizou o discurso, anunciando uma pausa de 90 dias e a redução da maioria das sanções para 10%.

A exceção foi a China, que, segundo Trump, teria demonstrado “falta de respeito” aos mercados globais. O país asiático enfrenta agora tarifas de 125%.

União de consumidores e empresas

A resposta internacional não se limitou aos governos. Consumidores ao redor do mundo têm reagido com veemência. Na União Europeia, que sofreu uma sobretaxa de 20% antes da trégua americana, as reações foram imediatas. Movimentos virtuais e físicos pedem que os consumidores deem preferência a produtos locais – e, em alguns casos, incentivam boicotes diretos a itens dos EUA.

Grupos como o francês "Boycott USA: Achetez Français et Européen!", com mais de 30 mil membros no Facebook, e os suecos "Bojkotta varor från USA" e "Boykot varer fra USA", que somam juntos mais de 180 mil seguidores, se tornaram centros de articulação contra os produtos norte-americanos.

Na Alemanha, uma pesquisa do instituto Cuvey revelou que 64% da população estaria disposta a evitar produtos dos EUA, se possível. A maioria dos entrevistados afirmou que já começou a mudar seus hábitos de consumo como forma de protesto às políticas econômicas de Trump.

Em plataformas como Reddit, internautas canadenses e europeus iniciaram movimentos para virar de cabeça para baixo os produtos americanos nas prateleiras de supermercados, como forma simbólica de alerta aos demais compradores.

Varejo e indústria se mobilizam

Empresas europeias também estão reagindo. Na Dinamarca, o grupo varejista Salling prometeu sinalizar os produtos europeus com uma estrela preta, facilitando a identificação por consumidores. No LinkedIn, o CEO da companhia, Anders Hagh, declarou:

“Continuaremos vendendo produtos americanos, mas a nova etiqueta é um serviço extra para fregueses que querem comprar artigos de marcas europeias”.

Outras empresas estão adotando medidas mais contundentes. A fornecedora norueguesa Haltbakk Bunkers, por exemplo, anunciou a suspensão do fornecimento de combustível para embarcações da Marinha dos EUA.

Tesla é o símbolo da reação

A marca americana mais visada pelos protestos é a Tesla, de Elon Musk – doador influente da campanha de Trump e atual conselheiro da força-tarefa do Departamento de Eficiência Governamental (Doge), voltada à redução da burocracia estatal.

A empresa viu sua cotação despencar 40% na bolsa e tem enfrentado protestos públicos em vários países. No primeiro trimestre de 2025, as vendas globais caíram 13%, com um tombo ainda mais acentuado na Europa: em janeiro, a queda foi de 45% em relação ao mesmo período de 2024, segundo dados da Associação de Construtores de Automóveis Europeus.

Nesse cenário, montadoras locais ganham espaço. A Volkswagen liderou as vendas de carros elétricos no primeiro trimestre de 2025, superando marcas como BMW, Skoda, Audi e Seat. A Tesla, que antes liderava o setor, caiu para a oitava posição.

Canadá intensifica rejeição aos EUA​

No Canadá, o clima de rejeição às políticas americanas também se intensificou após Trump impor tarifas de 25% sobre aço, alumínio e automóveis, além de outros produtos fora do escopo do acordo USMCA.

O Partido Liberal, agora sob liderança de Mark Carney, viu sua popularidade crescer rapidamente e desponta nas pesquisas para as eleições de 24 de abril.

No campo econômico, o boicote se materializou em ações concretas. Doug Ford, governador de Ontário, cancelou um contrato de 100 milhões de dólares canadenses com a Starlink, de Elon Musk. Em publicação na plataforma X, afirmou:

“Ontário não faz negócios com quem está doido para destruir a nossa economia”.

Campanhas como “Buy Canadian” se espalharam, com províncias como Colúmbia Britânica e New Brunswick adotando medidas para evitar produtos dos EUA. Aplicativos como Buy Beaver, Maple Scan e o site Made in CA têm ajudado consumidores a identificar artigos nacionais.

“Há muito patriotismo no momento, neste país. Há um forte sentimento de que os canadenses querem apoiar outros canadenses”, afirmou Dylan Lobo, fundador do Made in CA, à revista Business Insider.

Um novo caso de "freedom fries"?

A resistência internacional às marcas americanas lembra a reação ocorrida em 2003, quando a França se opôs à invasão do Iraque, e os "french fries" passaram a ser chamados de freedom fries nos EUA.

Takeshi Niinami, CEO da japonesa Suntory Holdings, dona do uísque bourbon Jim Beam, previu o impacto: “Elaboramos nosso plano estratégico de 2025 assumindo que os produtos americanos seriam menos aceitos fora do país, por causa, em primeiro lugar, das tarifas, e em segundo, de emoção”, disse à Financial Times.

O professor de história Garritt van Dyk, da Universidade de Waikato, na Nova Zelândia, reforça esse paralelo:

“Em outros momentos no passado houve essa reação esquisita de ‘a gente não quer mais pertencer a essa cultura’. Num mercado superlotado, as pessoas podem fazer suas próprias escolhas”, explicou.
 

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