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02/04/2025 - 00:55 | Atualizado em 07/04/2025 - 18:02
Onça-pintada no Pantanal: pesquisa revela parasita e busca reduzir conflitos
Estudo inédito identifica parasita em onças e propõe soluções para a coexistência entre felinos e pecuaristas
Por Monica Tarantino
A onça-pintada é o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, ficando atrás apenas do tigre e do leão. No Brasil, esse símbolo da fauna nacional está presente em diferentes biomas, como a Mata Atlântica, a Floresta Amazônica, o Cerrado e a Caatinga. No entanto, é no Pantanal, a maior área alagável do planeta, que um estudo conduzido pela Unesp está trazendo novas descobertas e promovendo soluções para minimizar os conflitos entre humanos e esse grande predador.
Apesar da sua impressionante capacidade de adaptação, a onça enfrenta desafios cada vez maiores devido às transformações provocadas pelo homem, como a destruição do habitat e a escassez de presas naturais. Como resultado, muitas acabam atacando o gado, o que gera represálias por parte dos pecuaristas.
"Tudo isso aumenta os conflitos entre esses animais e os agricultores e produtores rurais", afirma Ricardo Boulhosa, presidente da ONG Instituto Pró-Carnívoros, que estuda as onças há mais de trinta anos. Para defender seus rebanhos, fazendeiros recorrem ao uso de armas de fogo, agravando ainda mais a situação.
Descoberta de parasita inédita no Pantanal
Pesquisadores monitoram essa relação conflituosa e buscam soluções para preservar a espécie, classificada como "quase ameaçada". Uma das principais descobertas recentes foi a identificação, pela primeira vez, do parasita Spirometra spp. em onças do Pantanal. Esse patógeno pode afetar outros animais e até seres humanos.
O estudo foi conduzido entre 2022 e 2024 na Fazenda Piuval, próxima a Poconé (MT), onde há uma população de aproximadamente 24 onças. A análise laboratorial de amostras fecais, realizada na Unesp, confirmou a presença do parasita.
"A presença do Spirometra spp. nas fezes das onças sugere que ele está circulando pelo ecossistema dessa região, onde nunca fora encontrado", explica Paul Raad, médico-veterinário e autor da pesquisa.
Impactos na saúde e na conservação
A infecção por Spirometra spp. pode causar esparganose, uma doença que afeta humanos quando se consome água contaminada ou carne malcozida de hospedeiros intermediários, como anfíbios e répteis. Em casos graves, pode comprometer músculos, olhos e o sistema nervoso central, provocando dor, inflamação e até cegueira.
O conceito de "saúde única", adotado no estudo, considera a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental. "É uma forma estratégica de monitorar patógenos e prevenir surtos antes que se tornem problemas de saúde pública", destaca Raad.
Medidas para reduzir conflitos
A convivência pacífica entre pecuaristas e onças é possível com a adoção de medidas preventivas. O estudo na Fazenda Piuval implementou soluções como cercas elétricas, monitoramento por câmeras e um espaço de maternidade adaptado para bezerros. Como resultado, a predação caiu de 25 bezerros em 2022 para apenas três em 2024.
"Queremos mostrar que é possível ganhar dinheiro com a onça viva, não com a onça morta", enfatiza Eduardo Eubank, administrador da Fazenda Piuval. Além da pecuária, a fazenda investe no ecoturismo, permitindo que visitantes observem onças em seu habitat natural.
Com iniciativas como essa, pesquisadores esperam mudar a percepção sobre a onça-pintada, mostrando que ela pode ser uma aliada na conservação e um indicador da qualidade ambiental do Pantanal.