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02/04/2025 - 00:46

Brasil bate recorde de afastamentos por transtornos mentais em 2024

Número de licenças cresce 67% em relação a 2023, evidenciando crise de saúde mental

Por Mayara Campos

Mais de 440 mil trabalhadores brasileiros precisaram se afastar do serviço em 2024 devido a transtornos mentais e comportamentais, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Esse número representa um recorde histórico, com um crescimento de 67% em relação a 2023, quando mais de 283 mil afastamentos foram registrados.
 
A evolução dos casos impressiona. Em 2014, cerca de 203 mil trabalhadores foram afastados por problemas como ansiedade, depressão, estresse grave e outros transtornos relacionados à saúde mental. Dez anos depois, esse número mais que dobrou, atingindo o maior patamar da série histórica.
 
Principais transtornos que levaram ao afastamento
Os transtornos que mais afastaram trabalhadores em 2024 foram:
  • Transtornos de ansiedade – 141.414 casos
  • Episódios depressivos – 113.604 casos
  • Transtorno depressivo recorrente – 52.627 casos
  • Transtorno afetivo bipolar – 51.314 casos
  • Uso de drogas e outras substâncias psicoativas – 21.498 casos
  • Reações ao estresse grave e transtornos de adaptação – 20.873 casos
  • Esquizofrenia – 14.778 casos
  • Uso de álcool – 11.470 casos
  • Uso de cocaína – 6.873 casos
  • Transtornos específicos da personalidade – 5.982 casos
 
A título de comparação, os afastamentos por transtornos de ansiedade aumentaram mais de 400% em relação a 2014, quando eram 32 mil casos. Já os afastamentos por episódios depressivos quase dobraram em uma década.
 
Em 2024, o Brasil registrou 3,5 milhões de pedidos de licença por diversos motivos de saúde, demonstrando o impacto crescente da saúde mental na força de trabalho.
 
Especialistas alertam para crise de saúde mental
Para Antonio Virgílio Bittencourt Bastos, professor de psicologia da Universidade Federal da Bahia e membro do Conselho Federal de Psicologia, os dados reforçam uma crise crescente de saúde mental no país.
 
"Os indicadores de adoecimento e de sofrimento psíquico extrapolam o mundo do trabalho. A crise de covid-19 nos trouxe essa pós-pandemia. Vivemos numa sociedade adoecida. Houve uma ruptura muito profunda da forma como vivíamos e vivemos, em certa medida, sequelas dessa experiência traumática", explicou o especialista.
 
Além da pandemia, o professor destaca que o avanço da tecnologia e as mudanças no mercado de trabalho criam um ambiente cada vez mais incerto e inseguro.
 
"Fora isso, a gente vive, na sociedade global, um contexto de mudanças muito profundas. Nos modos de interagir, na digitalização da vida, nos avanços tecnológicos que reestruturam toda a nossa dinâmica social. Esse conjunto de mudanças sociais, tecnológicas e econômicas geram um mundo muito mais inseguro e incerto."
 
Bastos aponta que a crise de saúde mental também tem forte relação com a precarização do trabalho e a fragilização dos vínculos empregatícios.
 
"Há um processo em curso. Estamos no meio de um processo muito intenso de reestruturação da vida em sociedade e é natural, é esperado que as pessoas reajam a essas mudanças com dificuldades. Sem dúvidas, a gente tem fatores mais específicos no contexto de trabalho. Esse impacto da revolução tecnológica, reestruturando postos de trabalho, redefinindo modelos de gestão, precarizando o trabalho e fragilizando vínculos. Isso, de alguma forma, torna a situação no trabalho específica, em que essa crise assume proporções, tonalidades e características próprias."
 
Além das mudanças no mercado de trabalho, práticas de gestão antiquadas e autoritárias agravam o problema.
 
"Ao lado dessa dinâmica de transformação do mundo do trabalho e de mudanças drásticas, você também convive com modelos de gestão e práticas arcaicas, tradicionais. Temos uma cultura que favorece práticas mais autoritárias, que levam a maior quantidade de tensões e conflitos e relações interpessoais mais difíceis."
 
Diante desse cenário preocupante, especialistas reforçam a necessidade de políticas públicas e iniciativas empresariais que promovam ambientes de trabalho mais saudáveis e acolhedores, além de um maior acesso a cuidados com a saúde mental.

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