Ao longo dos últimos três anos, tive a oportunidade de trabalhar com mais de 6 mil profissionais das redes municipais de ensino — entre professores, TDIs, ADIs e diretores —, além de conversar com milhares de pais e responsáveis, em 39 municípios de Mato Grosso.
Durante essa caminhada, falei muito sobre inclusão social, acolhimento e desenvolvimento educacional. Mas uma preocupação apareceu com força em muitas dessas conversas: a falta de segurança provocada pela presença do narcotráfico e do crime organizado no entorno das escolas.
Percebi que estamos diante de uma disputa silenciosa pelo futuro das nossas crianças e dos nossos adolescentes.
De um lado, estão professores, profissionais da educação e famílias que trabalham todos os dias para preparar essas crianças para uma faculdade, uma profissão e uma vida digna. Pessoas que desejam vê-las crescer, constituir suas famílias, trabalhar e contribuir com o desenvolvimento da sociedade.
Do outro lado, existem organizações criminosas que procuram vulnerabilidades, manipulam sentimentos e atraem crianças e adolescentes para o mundo do crime. Em alguns territórios, temos a dolorosa impressão de que o crime está chegando primeiro.
## Uma disputa pelo sentimento de pertencimento
Nas minhas viagens e conversas, ouvi relatos sobre um movimento organizado de aproximação que pode começar ainda na infância, em alguns casos por volta dos nove anos.
O crime identifica crianças que estão enfrentando situações de vulnerabilidade: violência dentro de casa, dependência de álcool ou outras drogas na família, conflitos entre os pais, separações traumáticas, dificuldades financeiras, abandono emocional ou ausência de uma rede de apoio.
É importante deixar claro que isso não significa responsabilizar ou estigmatizar famílias pobres. A vulnerabilidade pode assumir muitas formas e atingir diferentes lares. A responsabilidade pelo aliciamento é sempre de quem explora a fragilidade de uma criança.
A aproximação nem sempre começa com uma proposta criminosa. Muitas vezes, começa com algo aparentemente inofensivo: um convite para jogar futebol, uma comemoração no bairro, a distribuição de comida e doces ou uma demonstração de amizade.
Depois aparecem os presentes, o tênis novo e o dinheiro. Ouvi relatos de crianças e adolescentes que chegaram a receber entre R$ 200 e R$ 300 por semana. Para quem vive uma realidade de privações, esse valor pode representar muito mais do que dinheiro. Pode criar uma falsa sensação de proteção, reconhecimento e importância.
Com o passar do tempo, começam as tarefas, as cobranças e as chamadas “missões”. Quando aquela criança entra na adolescência, já pode estar profundamente envolvida com a organização criminosa.
O crime consegue construir algo que nós, muitas vezes, temos dificuldade de oferecer: um sentimento de pertencimento. A criança passa a acreditar que faz parte de um grupo que a protege, valoriza e reconhece.
Quando a sociedade percebe o que está acontecendo, romper esse vínculo pode ser muito difícil. O destino, em muitos casos, termina atrás das grades ou de forma ainda mais trágica, antes mesmo dos 18 anos.
## Câmeras e policiamento são necessários, mas não suficientes
Nos últimos anos, diferentes medidas foram adotadas para aumentar a segurança: instalação de câmeras, controle de acesso, policiamento, protocolos de emergência, escolas militares e ações preventivas como o PROERD.
Essas iniciativas são importantes e devem continuar. Elas ajudam a proteger a comunidade escolar, identificar ameaças e responder a situações de risco. Mas, sozinhas, não conseguem enfrentar as raízes do problema.
A câmera pode registrar o que aconteceu. O policiamento pode interromper uma ação criminosa. A escola pode aplicar regras e controlar o acesso. No entanto, nenhuma dessas medidas, isoladamente, consegue reconstruir os vínculos familiares, tratar uma dependência, acolher um adolescente ou devolver esperança a uma criança.
Também não podemos transformar professores em policiais ou colocar sobre a escola toda a responsabilidade por problemas que nascem fora de seus muros.
Se o poder público aparece apenas depois que a criança já foi aliciada, o crime teve meses ou até anos para construir uma relação com ela. Por isso, precisamos chegar antes.
## Fortalecer as famílias sem culpá-las
O foco das políticas de segurança escolar costuma permanecer quase exclusivamente sobre o comportamento das crianças. Mas crianças e adolescentes encontram maneiras de esconder suas ações, mudar seus caminhos e escapar dos mecanismos de controle.
A prevenção precisa alcançar também os pais e responsáveis.
Isso significa investir na saúde mental das famílias, oferecer aconselhamento, tratar dependências, enfrentar a violência doméstica e acompanhar de perto os lares que estejam vivendo situações de maior vulnerabilidade.
Muitos pais trabalham o dia inteiro, enfrentam dificuldades financeiras e carregam problemas emocionais sem qualquer apoio. Alguns não sabem identificar os sinais de que o filho está sendo aliciado. Outros percebem mudanças, mas têm medo de procurar ajuda.
Esses pais precisam ser acolhidos, não julgados.
Devemos orientá-los sobre a importância do diálogo, do exemplo, dos limites e da demonstração de afeto. Eles também precisam saber como conversar com os filhos sobre presentes, dinheiro fácil, falsas amizades e a vida curta que o crime oferece.
Uma criança que se sente amada e protegida não está completamente livre do risco, mas possui uma base mais forte para pedir ajuda, recusar uma abordagem e contar o que está acontecendo.
## O Estado precisa chegar antes do crime
Defendo uma política estadual integrada de prevenção, organizada em cinco frentes.
A primeira é o fortalecimento das famílias, com atendimento psicológico, orientação para pais e responsáveis, tratamento de dependências, mediação de conflitos e acompanhamento das situações mais vulneráveis.
A segunda é a criação de uma rede de proteção dentro e ao redor da escola. Os profissionais da educação precisam receber formação para reconhecer mudanças de comportamento e sinais de aliciamento, além de contar com um caminho claro para encaminhar cada caso aos serviços de saúde, assistência social, Conselho Tutelar e forças de segurança. Tudo isso deve ser feito com cuidado, sigilo e sem transformar a criança em suspeita ou criminosa.
A terceira frente é a ampliação das atividades no contraturno escolar. Esporte, música, dança, teatro, tecnologia, cultura, qualificação e empreendedorismo ajudam a desenvolver talentos e criam vínculos positivos. Mas não basta oferecer a atividade. É necessário garantir alimentação, transporte, horários acessíveis e condições para que as famílias consigam manter a participação das crianças.
A quarta frente é a recuperação dos espaços públicos. Praças bem cuidadas, parquinhos, quadras iluminadas, centros culturais e áreas de convivência ajudam as famílias a ocupar seus bairros de maneira saudável. Quando a comunidade abandona um espaço, o crime procura ocupá-lo.
A quinta frente é a segurança baseada em inteligência. Precisamos de câmeras, patrulhamento, protocolos e investigação, mas com atenção especial aos adultos e às estruturas que comandam o aliciamento. A criança recrutada precisa ser protegida e recuperada. Quem organiza e lucra com esse sistema precisa ser identificado e responsabilizado.
## Uma rede de pertencimento e oportunidades
Também precisamos acompanhar os resultados dessas ações. Frequência escolar, abandono, episódios de violência, participação no contraturno, atendimento das famílias e encaminhamentos concluídos devem ser monitorados. Uma política pública séria precisa mostrar se está conseguindo proteger vidas.
A segurança escolar não começa quando a câmera é ligada ou quando uma viatura chega ao portão. Ela começa quando uma criança acorda em uma casa onde existe acolhimento, entra em uma escola onde é respeitada, encontra uma atividade que desenvolve seus talentos e vive em um bairro que lhe oferece oportunidades.
O crime não pode continuar sendo a primeira rede a estender a mão.
Precisamos construir uma rede maior e mais forte, formada por famílias, escolas, poder público, profissionais da saúde, assistência social, forças de segurança, projetos sociais e toda a comunidade.
Enfrentar a insegurança nas escolas é muito mais do que vigiar crianças. É cuidar das pessoas, fortalecer as famílias e devolver aos nossos jovens o direito de sonhar.
É assim que poderemos preparar nossas crianças para uma faculdade, uma profissão e uma vida digna, saudável e próspera. E é assim que construiremos um Mato Grosso mais seguro: chegando com cuidado e oportunidades antes que o crime chegue com suas falsas promessas.