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Cáceres, Sábado, 4 de Julho de 2020

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01/11/2019 - 10:41

Professora da Unemat fala sobre o linguajar Mato-grossense

Por Lygia Lima

Assessoria

 (Crédito: Assessoria)
O falar do mato-grossense, com seu sotaque peculiar, expressões e modos próprios, tem raízes centenárias. A professora e pesquisadora da Universidade do Estado de Mato Groso (Unemat), Jocineide Macedo Karim, doutora em linguística e uma estudiosa das variações sociolinguísticas, destaca que esse falar é um patrimônio cultural que precisa ser preservado e merece ser valorizado, e não discriminado.
 
O “djeito” de falar presentes nas comunidades afrodescendentes dos quilombos e também das comunidades tradicionais de Mato Grosso é o objeto da pesquisa coordenada pela professora Jocineide, intitulado “A Variação Linguística em comunidades afro-brasileiras da região Centro-Oeste do Brasil”. A investigação vai levantar informações sociolinguísticas de comunidades quilombolas nas cidades de Cáceres, Poconé e Vila Bela da Santíssima Trindade.

De acordo com a professora, a pesquisa que está em andamento vem demonstrando a relação dos fatores socioeconômico, geográfico e culturais com o modo de preservação da fala. O falar presente nessas comunidades quilombolas segue o mesmo padrão encontrado em diversas cidades de Mato Grosso, constituídas durante o período do Brasil Colônia, colonizadas por bandeirantes vindos de São Paulo e por portugueses que vieram do norte de Portugal.

 “A nossa fala (fala do mato-grossense, das comunidades tradicionais e comunidades de afro-descendentes) está muito atrelada aos usos linguísticos daquele tempo. Nós temos encontrado nessas comunidades o português padrão, o português popular, o português arcaico e temos usos linguísticos que vieram com os portugueses colonizadores do norte de Portugal”, explica. Para ela, os estudos mostram que Mato Grosso formado durante o período do Brasil Colônia tem traços linguísticos muito parecidos, já o Mato Grosso formado depois do período do Brasil Colônia é outro. 

Para a pesquisadora, a manutenção dessa forma de falar, que é uma expressão cultural e de identidade e se mantém porque as mudanças linguísticas ocorrem lentamente. Além disso, nessas comunidades ocorreu um relativo isolamento. Nesta pesquisa, procura-se descrever essa variação linguística encontrada fortemente em Mato Grosso e que está bem preservada dentro dessas comunidades quilombolas.  Jocineide lembra que entre as pessoas mais idosas, com mais de 55 anos, que se mantém nessas comunidades o falar marcado por usos linguísticos como “djá”, o “djé”, o “tché” que estão presentes no “petche”, “catchorro”,  “dgente”,  “atchei”, “djeito” é muito mais marcado. “Essas são formas ainda estão muito presentes, ainda nos dias de hoje, no norte de Portugal”.

Também é comum encontrar o traço de concordância nominal de gênero, como “vou no mamãe”, ou como “nossa infância era maravilhoso”. Também temos a alternância do ditongo [ãW] e [õ], que pode ser observado por exemplo em pão, que se fala “pón” “mamón”, “irmon”e que também está presente em Portugal, bem como o alçamento da vogal central baixa [a] em ambiência nasal, como por exemplo: “tudo, aqui cánta, dánça cururu, baile”.

Outros usos linguísticos encontrado nas falas dessas comunidades vem do português rural e também do português popular, que se caracteriza pelo rotacismo que é a troca do “L” pelo “R”, como em “bicicreta”, “probrema” “Cróvis”, “craro”.  A professora explica que para estudar essas variações de fala é preciso entender e considerar a cultura e com isso valorizar e preservar.

“É importante saber que a língua é dinâmica e que à medida em que ela é usada vai ocorrendo sua renovação. Mas o que a gente percebe é que a direção atual é de valorizar e de preservar. O que ocorre com relação ao preconceito é que o nosso povo é um povo simples, acolhedor. O preconceito é social: o valor da fala dele é o valor que ele tem na sociedade. Então se somos uma sociedade, para os grandes centros, o interior do interior, então se forma o preconceito. Mas isso tem mudado por conta do conhecimento que vem sendo disseminado, de que esse modo de falar é uma riqueza, um patrimônio”, afirma a professora.  

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