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26/05/2019 - 10:04

'Armas em casa nunca mais', diz pai de criança morta em brincadeira com primo

Por RD News

A casinha continua em cima do pé de caju desde 12 de outubro do ano passado. Era a brincadeira preferida de Jheison Dione Pereira. Ele tinha 11 anos quando foi morto por um tiro acidental disparado pelo primo dele, de 12. O caso chocou a comunidade rural em Guarantã do Norte (a 715 km de Cuiabá), no dia 14 daquele mês. Cinco minutos após o menino ferido pronunciar as últimas palavras - “...você me acertou” -  o pai ouviu o último suspiro de seu único filho homem.

A casinha é a uma das únicas lembranças que o pai de Jheison, Dione da Silva Pereira, 36, ainda guarda no quintal do sítio em que mora com a mãe e irmãos. Ele é separado. Resolveu deixar a casinha no mesmo lugar, para não esquecer das cenas do filho brincando.

Dionei, que é motorista, voltou a trabalhar. Mas relata ao  que ainda se sente de luto e a tragédia devastou a família. "Há 7 meses, meu sobrinho disparou por acidente uma arma e matou meu filho sem querer", lamenta.

Para ele, é um desafio falar sobre o assunto. "Fiz acompanhamento psicológico por meses para conseguir e tentar retomar a minha vida. Tenho três filhos, sendo duas meninas, uma com 14 anos e outra com sete. Ele era o único menino. Aquele que me acompanhava para pescar, capinar. Vivia subindo em árvores. Não gostava de revólveres”, comenta.

Como estava chegando o Dia das Crianças, Jheison pediu para o pai deixar ele ir para a chácara. Como os pais são divorciados, o menino morava com a mãe na cidade e costumava passar os finais de semana na área rural. “Vieram os dois, meu filho e meu sobrinho. Chegaram na sexta, para passar o Dia das Crianças aqui. Sábado e domingo brincaram o dia todo”, detalha.

Na chácara, conta o pai, tem uma casa de madeira onde ninguém mora. Por conta disso a arma de pressão ficava guardada dentro da casa fechada. Como a porta não ficava com cadeado, as crianças tinham acesso a ela. Gostavam de colocar o celular para carregar justamente nesse local. “No domingo à tarde, eu peguei a arma para matar um frango. Ela era usada só para isso mesmo. Matei o frango e deixei a espingarda lá dentro, mas achei que tinha deixado desarmada, sem o chumbinho. Mas na verdade não deixei! Senão nada disso tinha acontecido”, relata, emocionado.

Dione conta que, depois disso, foi tomar banho, e, quando voltou, disse para o filho fazer o mesmo e se arrumar para o jantar. O motorista foi para a casa da mãe que fica em frente à dele e os meninos seguiram para tomar banho, mas antes entraram na casa para colocar o celular para carregar. A espingarda que estava encostada na parede chamou a atenção do primo. De brincadeira, ele quis dar um susto no Jheison. “Ela fazia um barulho mesmo sem o chumbinho. O meu sobrinho queria que esse barulho assustasse o meu menino”, explica, com a voz embargada.

Jheison

Após o disparo do tiro, o chumbinho pegou na parede do lado esquerdo de Jheison e voltou nele. O menino gritou, correu para fora da casa de madeira e caiu em frente à casa da avó. Foi uma correria na chácara. Dione viu o filho desmaiado. "Na hora, abaixei peguei meu menino no colo e coloquei na caminhonete, mas, quando cheguei na rua, ele já estava morto. A chácara fica a uns três mil metros da cidade”, detalha.

O tiro entrou pela axila do lado esquerdo e atingiu o coração.
O primo ficou em estado de choque e esperou a polícia chegar até a chácara para contar o que houve. Quando a Polícia Militar chegou, a espingarda estava no local do crime e o menino foi encaminhado junto com a avó para a delegacia da Polícia Civil.
O pai conta que essa arma sempre foi usada para caçar e que sempre explicava para o filho que não devia mexer quando estivesse sozinho. “Ele não gostava de armas, o negócio dele sempre foi subir em árvores para construir casas. Meu sobrinho que sempre fuçava em tudo. Ele também precisou fazer tratamento psicológico e hoje nos vemos pouco. É muito difícil ter que ficar falando e relembrando sobre isso”, pontua.

O motorista conta que depois da tragédia não voltou a pegar mais em armas. No ponto de vista dele, aconteceu o que tinha que acontecer, uma vez que a espingarda estava com ele há muito tempo e sempre quis jogá-la fora, mas nunca dava certo.

“Por várias vezes tentei. Se eu tivesse levado, não teria acontecido. Não tem cabimento um chumbinho tirar uma vida. Mas tirou. Entendo que as pessoas queiram e tentem defender o que é seu da bandidagem, mas a arma tirou de mim o meu filho”, afirma.

Bolsonaro arma

Estatísticas

Em Mato Grosso entre 2017 e 2018 foram registrado quatro casos de crianças mortas com disparo acidental. A reportagem tentou falar com outros familiares, mas ninguém aceitou comentar ou reviver a dor da perda.

Decreto de Bolsonaro

Diante deste cenário, o decreto do presidente Jair Bolsonaro (PSL) que muda as regras de porte e posse de armas de fogo, publicado no dia 8 de maio, também flexibiliza o acesso de menores de idade a clubes de tiro.

Antes, quem tinha menos de 18 anos precisava de autorização judicial para frequentar aulas de tiro. Com o novo decreto, é preciso apenas uma autorização de um dos responsáveis legais pelo menor.

Foram mantidas as exigências de que o curso ocorra em local autorizado pelo Comando do Exército, e que o menor use a arma da agremiação ou do responsável quando estiver acompanhado por ele. O Governo chegou, na quarta passada (22), a publicar novas regras de posse e porte de armas após críticas de especialistas e de governadores que pediram a revogação do decreto, que amplia o contingente de pessoas que poderiam ter armas pesadas. A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, no entanto, afirma que a nova versão continua inconstitucional. 

Na avaliação do pesquisador da UFMT, Naldson Ramos, que é doutor em sociologia com foco em violência policial, segurança pública e práticas civilizatórias em Mato Grosso, a abertura para o uso de armas nos coloca na expectativa para ver tragédias anunciadas em família. Naldson, que também é membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que crianças e jovens são curiosos e nem sempre respeitam ordem proibitiva.

“Quando acontecem tragédias como essa, deixam famílias devastadas. Estudos comprovam que nos Estados Unidos, onde há legislação mais rígida sobre armas de fogo tem menos crianças que morreram em acidentes deste tipo”, observa.

Nos Estados Unidos, país que o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, usa sempre como exemplo, um levantamento realizado pelo American Academy of Pediatrics, apontou que, todo ano, 2.715 crianças morrem de tiro acidental. É a segunda maior causa de morte na faixa etária - atrás de acidentes e à frente da soma entre os casos de câncer e problemas cardíacos.

Do contrário, em estados americanos em que as leis buscam manter especificamente as armas fora do alcance crianças ocorrem menos mortes entre as crianças.
Para o pesquisador da UFMT, quando ocorrem as tragédias, como a da família de Dione, é extremante normal a reação de não querer nunca mais pegar em uma arma. “Sentem-se totalmente culpados, pois acreditam que tiveram uma parcela de responsabilidade”, avisa.

Eleições

No Brasil, o assunto ganhou muita visibiliade, mais uma vez, no período eleitoral. "Muitos acreditam que ter arma em casa dá segurança, mas isso pode ser também fator desencadeador de comportamento. Não quero dizer que a arma por si só ou ter conhecimento sobre elas ou se for liberada a compra vá desencadear violência automaticamente. Mas fatores combinados, sim", assegura Naldson.

Cuidados

O escrivão da Polícia Federal, Paulo Gomes, que atua na área há 22 anos, explica como são os cuidados com a arma e os filhos. Ele que tem um casal, um menino de 14 anos e uma menina 10, relatou à reportagem do  como os ensinou que a arma não é brinquedo. Destaca que, desde que nasceram, sabem que o pai vive armado. Paulo buscou tirar a curiosidade com o objeto.

“Eu deixava a arma desmuniciada, sempre explicando para eles que esse é o trabalho do pai deles e, ao mesmo tempo, matando a curiosidade, principalmente do menino. "Desde cedo os coloquei a par da situação de que a arma é perigosa e que aquilo não era um brinquedo de jogo de internet. Até mesmo hoje em dia, eles não têm essa curiosidade de ficar mexendo em uma arma, porque desde eu os adaptei a situação”, conta.

O policial destaca que mesmo assim continua cuidadoso. Quando os filhos eram pequenos, colocava a arma em cima do guarda-roupa para deixá-la totalmente fora de alcance deles. Mas, com o crescimento, comprou um cofre, do qual somente ele tem a senha. “Então quando chego em casa é pegar a minha arma e colocar dentro do cofre, depois tranco. Quando saio, abro o cofre, pego a arma e vou trabalhar”, detalha.

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