Artigos / Beatriz Garcia Marques

03/05/2017 - 11:37

Gasolina no fogo

Muitas vezes me descrevem como uma pessoa irônica, que gosta de fazer críticas sem as expressar da forma literal. Alguns dizem que  isso é bom, outros que não é ao todo inteligente e até mesmo perigoso e parcial.
 
Eis que abro as páginas dos jornais pela manhã e vejo estampada uma declaração do governo brasileiro acerca da gestão de Nicolás Maduro na turbulenta Venezuela e creio que a declaração do Ministro de Relações Exteriores superou todas minhas manifestações de ironia até agora.
 
O tucano Aloysio Nunes disse à TV que Maduro aplicou um golpe, "um momento de ruptura da ordem democrática que contraria  a própria Constituição venezuelana", e ainda afirmou que o governante pretende reformar a constituição a fim de atender seus interesses "tacando gasolina no fogo". Parece-me que já vi isso em algum outro lugar. 
 
Parceiro do governo Temer no processo de impeachment, Nunes tem uma ficha bastante interessante afinal recentemente foi citado na famosa delação da Odebretch sendo acusado de receber doações ilegais em troca de favores políticos. Em abril, o Ministro já havia dado as caras condenando o governo de Maduro pela morte de um manisfestante e, em contrapartida, quando questionado sobre as manifestações anti-reformas no Brasil, classificou-as como "pirraça popular que precisa ser contida".
 
Sendo assim, a discussão sobre o isolamento da Venezuela e a saída do Mercosul tem sido recorrente entre os governantes. Lamentavelmente a curta memória da elite não se recorda das semelhanças desse período com o Brasil, o estado de recessão impulsionado  pela queda no valor das commodities e do petróleo bem como a instabilidade política acentuam os problemas sociais e econômicos levando da ordem ao caos.
 
Dessa forma, ao invés de colocar "gasolina no fogo", um morador deve saber que qualquer problema com seu vizinho de parede pode vir a afetá-lo e assim deve ajudar a sanar o problema ao invés de ignora-lo sentado na porta de casa com seus problemas. E no fundo você sabe que já passou pelos mesmos problemas que ele.
 
Assim um governo consciente deveria agir, visto que a Venezuela é a quarta potência da América do Sul sendo primordial no fornecimento de petróleo e conferindo peso essencial na balança das relações econômicas entre os países membros do Mercosul.
 
No entanto, mesmo sabendo que a saída da Venezuela pode gerar consequências preferem manter a hipocrisia ao agir diplomaticamente. Irônico.
Beatriz Garcia Marques

por Beatriz Garcia Marques

É acadêmica de Comunicação Social - UFMT
 
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