Artigos / José Ricardo Menacho

11/10/2014 - 11:56

Direito humanizado

Desde muito pequenino sempre me interessei pelo mundo que não se apresentava aos meus olhos. Guiado pela curiosidade tão peculiar a qualquer criança, ficava imaginando o que estaria acontecendo por detrás das cortinas enquanto os atores estavam no palco; na escola ficava tentando decifrar os mistérios de portas trancadas ou de armários esquecidos pelos cantos; e em casa, fechando o círculo nada vicioso de invencionices e elucubrações, ficava pensando no que acontecia no quintal a partir do momento em que me deixava levar pelos sonhos de travesseiro.
 
Ao longo do tempo, o fascínio pelo que não conseguia ver ou perceber não se modificou, ao revés, só se fez ampliar, gerando ainda mais caraminholas em minha cabeça.

Acresçam-se aos mistérios da infância, que até hoje roubam meus pensamentos, os mistérios do agora; ponho-me a ponderar constantemente sobre os mais diversos acontecimentos políticos, sociais e econômicos que “por aí e por aqui” pipocam e percebo o quão desencantadosestamos, o quão desapaixonados nos encontramos, uma vez que baixo nossas vistas passam despercebidamente tantas injustiças e mascaramentos, sem que nos inteiremos, sem pelo menos imaginar o que estaria por detrás desses fatos.
 
É triste verificarmos o enraizar e o propagar do senso comum, que persiste em nos fazer contentar com os ditames da superficialidade de análises [...].

Por desinteresse, comodismos, enganos, padrões que nos são impostos ou mesmo pelo manifestar do processo do Pinóquio às avessas à la Rubem Alves, deixamos de ser SERES de perguntas e construtores de respostas, para sermos SERES armazenadores e empilhadores de informações pré-constituídas.

Não nos interessamos acerca dos motivos das ações implementadas pelos mais diversos segmentos sociais e grupos políticos, tudo se afoga, inquietações e descontentamentos, num mar de boatarias e valores que não nos pertencem, tampouco nos representam.

ais que um drama qualquer, uma constatação, deixamos de ver, falar e ouvir por impulso motor próprio, perdemos a sensação dos sabores [...], nessa toada, passamos a servir como meros reprodutores e mantenedores de nossa condição de explorados.

Registra-se que a nossa intenção aqui não é a de eleger modelos interpretativos ideais, ou de estabelecer como ponto de partida uma única visão (ou posição) de mundo por meio da qual os fenômenos devem ser entendidos; ao contrário, pretendemos incentivar a reflexão e o debate sobre os temas caros a nós mesmos, relevantes aos nossos destinos, no intuito de superarmos a apatia que nos cega, que nos deixa sem voz, aprisionando-nos, por fim, em gaiolas.

Concorrem para o fenômeno do desencantamento relatado, as ilusões criadas pela ideologia capitalista, que mais servem para falsear a realidade do que para mostrá-la como é; nesse cenário, de forma sintomática, o indivíduo se desliga do seu próprio meio, o que gera a perda de sua consciência social e o esvaziamento de seu protagonismo.

A partir desse estágio, não há mais que se falar em um sujeito histórico, que toma posse de seu tempo, que luta e briga pelos seus ideais e os de sua comunidade, que reivindica seus direitos e desafia interesses hegemônicos; o que resta é um SER que de forma contundente pensa ser natural se satisfazer com a sua ignorância, pensa ser natural a miséria em que se encontra, pensa ser natural os desequilíbrios, desproporções e desajustes existentes na sociedade, como se pobreza e riqueza fossem dádivas sobrenaturais.

Na contramão, a compreensão da HUMANIDADE e da CIDADANIA de cada pessoa, sob o prisma mercadológico (tipicamente capitalista, por óbvio), é extremamente restringida à ideia de ser um potencial consumidor, portanto, “sou destinatário de direitos, sou um cidadão, sou um ser humano, porque posso comprar”! Pura inversão de valores.
 
Para que entendamos o que vem a ser a ideologia capitalista, imaginemos duas pinturas da mesma paisagem, feitas por artistas diferentes.

Na primeira, no lugar de uma favela ao fundo, o pintor traça requintadas linhas multicoloridas dando expressividade somente ao morro que ali está, omitindo propositalmente os precários casebres que não deixam a imagem muito agradável, pelo menos nos padrões que se espera, e assim segue, omitindo e mascarando os fatos.

Na segunda, o pintor retrata exatamente como é a paisagem, com pobrezas e riquezas, alegrias e tristezas.

A primeira obra descrita corresponde à dinâmica daideologia capitalista, que no intuito de nos ludibriar e amansar, esconde os conflitos e desigualdades sociais existentes [...]. A segunda, por sua vez, sinaliza a visão da qual nossos estudos e avaliações sobre o que nos rodeia deve partir.

É preciso que busquemos refletir sobre o que não é demonstrado, sobre o que está por detrás das cortinas, “debaixo do tapete”, como costumamos dizer, ou mesmo sobre o que é amplamente propagado rotineiramente pelas páginas impressas, televisas e virtuais da mídia sem qualquer responsabilidade, como se houvesse uma suposta ilimitada liberdade de expressão em que tudo é permitido, desde golpes a discursos do ódio.

É imprescindível que detectemos o quão devastador pode ser a prevalência do senso comum na dinâmica social, pois fornece respostas aos problemas de forma simplista, arbitrária, apontando culpados e justificando ações discriminatórias, racistas, homofóbicas e machistas numa ordem natural, como se cada um devesse ocupar um espaço determinado e se resignar quanto à sua insignificância num mundo dito das maiorias.

desencantamento e a apatia não podem mais se perpetuar. Reacendamos as chamas da curiosidade, da inquietação, da alteridade, tão peculiares aos tempos de criança, que há muito se apagaram. Mediados pela gramática de proteção à dignidade humana, rompamos com a inércia e passemos a examinar os fatos políticos, sociais e econômicos não como queremos que sejam a fim de nos beneficiarmos, mas levando em consideração suas inúmeras identidades, sem imposições, menosprezos ou lavagens cerebrais.
 
Questionemos.
José Ricardo Menacho

por José Ricardo Menacho

Professor da UNEMAT/Cáceres e Escritor.
Autor dos livros: “O Plural do Diverso" (2016) e “Sarau" (2018).
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