Artigos / José Ricardo Menacho

13/10/2020 - 08:26

Meu amigo virou uma empresa: “uma biografia de sucesso”

[SEGUNDO ATO]
 
Parte I– A disseminação
 
A busca pelo sucesso se tornou o seu Norte, e, ao mesmo tempo, a sua prisão. Ele acreditava que vivia num mundo em que todos poderiam ser o que quisessem ser, que bastaria se esforçar para se chegar ao topo. Segundo a sua avaliação, ser pobre ou ser rico, era uma questão de mérito, e de mudança de atitude no momento certo, e nada mais: “só não consegue vencer nessa vida quem não quer”, dizia frequentemente nas palestras que ministrava para um público muito seleto. E ó, “seleto mesmo”, porque as vagas para os eventos que organizava eram limitadas e com o valor bem salgado. Seus argumentos e explicações, nada científicos, eram um bálsamo para os ouvidos daqueles que faziam parte de sua audiência cativa. Uma desculpa bem arquitetada, ou melhor, uma justificativa bem bolada, para que seus expectadores mais endinheirados, ou mesmo para aqueles que não eram, mas queriam a todo custo ser, pudessem lavar as mãos e se descomprometer com o que se passava no mundo real – porque, afinal, de acordo com o senso comum que cultivavam, reforçado e sustentado pelas palestras que viam, se existia injustiças ou desigualdades, cada um que tentasse superar seus perrengues e dificuldades por seu próprio esforço, dando a cara a tapa, empreendendo, economizando, trabalhando, cada um com seus problemas, oras!
 
Eu fui prestigiá-lo em uma daquelas palestras. Ao final, quando fui cumprimentá-lo, não me segurei. Disse a ele que havia uma distância muito grande entre o “querer” e o “acontecer”, e que essa distância não era ultrapassada fazendo pensamento positivo, ou falando em voz alta frases de impacto em frente a um espelho, ou rugindo como um leão, como ele orientava a fazer em algumas dinâmicas de grupo. Perguntei se ele andava desmemoriado, pois parecia que ele tinha se esquecido, não só da desigualdade avassaladora que acometia a sociedade e explicava muita coisa do que acontecia de desastroso em nosso meio, mas da gorda mesada que seus pais sempre lhe deram e das ajudas extras que, também, nunca faltaram. Mérito, é? Tá bom! Com essas provocações bem afrontosas, tentei lhe explicar que o seu ponto de partida, em relação ao de tantos outros, foi bem diferente, o que não era um crime, obviamente, mas que por uma questão, no mínimo, ética, ele não deveria ligar sucesso à capacidade de desejar das pessoas, naturalizando, dessa forma, o caos social e encobrindo, com muito oportunismo, as raízes de boa parte de nossos problemas, que, diga-se de passagem, estavam [e assim seguem] para muito além do “indivíduo”. Fiz “textão” mesmo na ocasião, um “textão” presencial, ao vivo e a cores. Ele não gostou. E nunca mais me convidou para nenhum outro de seus encontros.
 
Apurando um pouco mais a história, entre tantos casos e acasos, barracos e baixarias vivenciados, eu ainda gostaria de destacar o episódio em que eu percebi, ou melhor, em que eu tive a impressão de que meu amigo não voltaria mais do planeta para onde ele havia se mudado.
 
Foi mais ou menos assim. Estávamos na portaria do clube, onde encontraríamos os antigos colegas da turma do Ensino Médio para uma pequena confraternização. Para entrar, aqueles que não eram sócios, tinham que fazer um cadastro como visitante, o que foi o caso de muitos de nós, inclusive, o dele. Na sua vez, ao ser perguntado sobre os seus dados pessoais, ele, espontaneamente, passou o seu perfil do Instagram como RG, o CNPJ de sua MEI como CPF, e a identificação de sua fanpage, no Facebook, como endereço residencial; ainda sorriu para a recepcionista, com uma simpatia teatral, e a aconselhou a procurá-lo em suas redes sociais, caso quisesse mudar de mentalidade, aderir a uma vida mais competitiva, mais voltada ao crescimento. Um flagra bobo, talvez, mas pelo contexto que eu já estava acompanhando há um tempo, foi um sinal forte de que o havíamos perdido. Ou, como teorizou um outro amigo, que há um tempo também estava acompanhando o caso, foi um sinal forte do nascimento de um outro homem, um modelo que estava em franca comercialização e disseminação: o homem concorrencial, ou o homem da concorrência, que, no intuito de aumentar a produtividade, a qualquer preço, concorre com os outros e consigo mesmo, sem dar trégua às suas próprias energias, ignorando a escassez e a transitoriedade de si, bem como dos recursos que instrumentaliza para ganhar [ou tentar ganhar] mais, ou que almeja [como bens de consumo] para se distinguir das outras pessoas.
 
Parte II – O desfecho
 
Ele se esgotou. Seu corpo e sua mente não aguentaram a sua própria pressão. A concorrência elevada à máxima potência não aguentava desaforos, sedutora no início, beatificada como salvadora no meio, e mortífera no final, tragava e triturava, sem dó, aos que a colocavam como seu guia, ou a sua razão de ser. Não teve tempo de se recuperar, mas nem cogitava essa hipótese. Pelo visto, queria competir até o seu limite. Numa madrugada, as portas de sua empresa, ou as suas próprias portas, foram fechadas, e nem por ele, por um outro amigo que o tentou acudir. Foi-se como um sopro, mas acreditando, piamente, que era eterno.
José Ricardo Menacho

por José Ricardo Menacho

Professor do Curso de Direito da UNEMAT/Cáceres
Mestre em Direito pela UFPR e Doutorando em Linguística pela UNEMAT
Escritor e Cronista
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4 comentários

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  • por Joelma Bressanin, em 21.10.2020 às 00:04

    Parabéns pelo texto, José Ricardo. O diferencial de sua escrita é que oportuniza ao leitor ver posições distintas sobre a meritocracia e refletir sobre os modos atuais da exploração/reprodução capitalista. Desfecho maravilhoso!

  • por Olga Castrillon, em 14.10.2020 às 05:38

    Excelente texto criativo que fica entre a crônica e o conto bem ao gosto contemporaneo do tempero com sutil ironia. Parabens José Ricardo. Continue a nos brindar com sua literatura!!

  • por João, em 13.10.2020 às 17:31

    Essa crônica nos permite refletir sobre uma construção ideológica de meritocracia que ignora fatores sociais, politicos, culturais etc. Que de maneira equivocada e massiva tem incutido na sociedade que somos oque temos e oque podemos consumir. A posse passa a ser resultado de esforsos individuais "mérito". A partir dessa crônica percebo que viramos frações binarios, e banco de dados digitais, e o nosso endereço eletrônico é uma porta para uma formação em massa de ideologia do consumo, "Você pode ser milhonário em poucos dias. Veja como você pode ganhar de mil a cinco mil por dia etc". certamente você já ouviu esse discurso. Esse é o novo discurso do mercado do poder, para que esqueçamos que para ser só presizamos pensar eo pensamento nos traz a existência. A meritocracia, apaga o passado que explica o presente, ignora a acessibilidade , a geografia e apaga a capacidade de pensar em fatores externos que está além do querer. Apenas o querer não se realiza aliados aos esforsos mas , depende das condições favoraveis e é essa condição favoravel que o discurso bem explicado da meritocracia ignóra. Obrigado autor, me fez pensar !Sucesso.

  • por Daniele Angélica Borges Foletto, em 13.10.2020 às 13:40

    Magnífico e de extrema importância para uma reflexão!!! Parabéns José Ricardo!!!

 
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