Artigos / Beatriz Garcia Marques

12/05/2020 - 14:33 | Atualizado em 13/05/2020 - 08:26

Obsolescência Programada

A palavra obsoleto vem do latim obsolētus, que significa 'deteriorado, estragado com o tempo’.  O termo obsolescência programada normalmente se refere à duração reduzida de um produto em decorrência do sustento de um modelo resumido em oferta e procura, muito defendido por Adam Smith para embasar sua teoria liberal no seculo XIII.

Entretanto, aqui eu o uso para abranger outra esfera: a social. O findável é aplicado às relações, sejam elas conexões internas ou externas do seu cotidiano. Desde a senhora que te atende na padaria da esquina ao primo que cresceram juntos e nunca mais se falaram. 

A fragilidade de laços humanos, segundo Bauman se disseminaram através da necessidade do consumo e o avanço tecnológico que quase descarta o contato físico. Todavia, ao meu ver, a depreciação desses laços se relaciona também com a inversão ou mutação de valores.

Observa-se bem no século XXI a imponência do individualismo, a falta de empatia, a acepção do “depois” e a solitude - bem explicada pelo teólogo Paul Tillich em sua obra o Eterno agora.

Para depois se deixam abraços, sorrisos, conversas, momentos, todos reversos em gratidão em ode à suas metas individuais. Se deixam amizades como a do primo que era um confidente pela simples liquefação que é quase imperceptível à consciência em estado inerte, irreflexivo.

Se programam, por vezes, futuros obsoletos: com inicio, meio e fim. Coisa que reforçou o mal do século: a ambição e a frustração de não se conseguir o que se planeja. Sem que se deixe fluir os dias, com seus deslizes e surpresas corriqueiros, o mundo tornou-se mecânico. 

Lembro-me da minha bisavó contar seu passado como nos filmes: com acontecidos não planejados, cartas trocadas, sorrisos e muito “rouge” nas  bochechas, como dizia. Momentos tão profundos e cheios de realidade que se estenderam até seus 92 anos em suas lembranças. 

O valor em memória de momentos reais sao eternos, inacabáveis e inabaláveis à alma. Afinal, como disse Adélia Prado, “Tudo que a memória amou já ficou eterno”!
Beatriz Garcia Marques

por Beatriz Garcia Marques

É acadêmica de Comunicação Social - UFMT
 
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