Artigos / José Ricardo Menacho

03/05/2019 - 08:02

Agora querem nos filmar!

Agora querem nos filmar! E eu me pergunto: filmar para quê? Será que é: para dar visibilidade às lutas históricas de nossa categoria? Para revisar ou rememorar as reflexões construídas em sala? Para divulgar o conhecimento de ponta, desenvolvido nos núcleos e grupos de pesquisa das instituições públicas do país? Para protestar contra o sucateamento das universidades e escolas públicas, pleiteando mais recursos para o ensino, a pesquisa e a extensão? Utopias. Acho que estou sendo otimista demais com o trato dessa questão.

O fato é que, como eu afirmei no início, agora querem nos filmar. E querem fazer isso para nos desacreditar perante a sociedade, para nos silenciar e nos amedrontar, para – retirando ou distorcendo nossas falas, comentários e posicionamentos – nos colocar sob o julgamento da “opinião pública”, que, por sinal, ainda segue mal das pernas, envolta em uma polarização odiosa, contraproducente e ignorante.

Desconhecendo os problemas e os desafios [fundantes, eu diria] da educação brasileira e, principalmente, os problemas e os desafios da ordem de outras esferas que também impactam naquela área [como, por exemplo, a saúde, a habitação, a segurança pública, a assistência social, a segurança alimentar, o acesso à cultura e ao lazer], dizem, sem o menor constrangimento, que nós – professores e professoras – no exercício de nossa profissão, estamos doutrinando os estudantes. E dizem mais, muito mais!

Colocando no mesmo balaio mistificações ideológicas, senso comum [dos mais retrógrados], orientações arcaicas de quem não é do ramo, moralismos e uma visão reducionista, estreita sobre a educação, dizem que a escola ideal é [segundo reza a lenda] a “sem partido” [sem o partido dos outros, é claro]. Dizem que o jovem da escola pública precisa somente aprender a ler, a escrever e a fazer conta, e nada mais. Dizem que a Filosofia, a Sociologia e o campo das Ciências Humanas não trazem um retorno satisfatório à sociedade e por isso não merecem muitos investimentos. Dizem que Paulo Freire – o educador brasileiro, reconhecido mundialmente por seu trabalho, atuação, pesquisas e estudos – é o responsável pelos baixos índices de qualidade educacional no Brasil. Aproveitando a oportunidade, ainda sobre Paulo Freire, o curioso é que dizem o que dizem, sem sequer terem lido um livro seu, ou sem sequer terem assistido a uma de suas inúmeras palestras disponíveis nas plataformas digitais. Dizem, dizem, dizem [...].  

Mas quem diz? Quem anda espalhando essas confusões? Quem anda alimentando essa boataria sem qualquer fundamento? Quem anda incentivando que nos filmem? Respondo. Esses dizeres estão vindo de um lugar um tanto incomum: do Executivo Federal, sim, do próprio[1]. Um tanto “incomum”, como me referi, porque, em estando em uma República, que é Democrática e de Direito, e que se assenta em uma Constituição Federal dita cidadã, era para ser, dentre outros possíveis,  aquele o espaço institucional – o do Executivo Federal – em que deveríamos buscar referência, amparo e reforço para o desenvolvimento de nossas atividades profissionais; em que deveríamos buscar acolhimento e respostas para a defesa de nossas prerrogativas, direitos e garantias na prestação dos serviços públicos; em que, dentro de uma margem de negociação, deveríamos buscar, sem hostilidades e reprimendas, o diálogo.

A contradição de toda essa história é inacreditável – como compartilhei com uma amiga, também professora, “parece que estamos enleados em um enredo de ficção científica, sem deixar a desejar a nenhuma teoria da conspiração”.

O raciocínio é mais ou menos o seguinte: “o sistema educacional brasileiro tem um problema, precisamos então achar um bode expiatório, alguém para culpar. Já sei quem pode ser! O professor, sim o professor! Bingo! E para não despertar um ódio generalizado contra a categoria como um todo – o que já não seria viável – vamos delimitar o alvo [imaginário] de nossos ataques, um professor específico, aquele que doutrina. Isso! Aquele que doutrina. E a vantagem é que ‘doutrinar’ é um termo amplo, vago, bem subjetivo, servirá e muito para o que queremos”. Lamentável. E é nesse ponto que o círculo de perversidades se fecha contra nós, uma vez que se fazemos o que dizem que fazemos – e dizem, destaco, sem noção alguma do que seja e de como se desenvolve um processo de formação educacional – então precisamos, na concepção dos que defendem esse tipo de tese, ser monitorados, delatados, punidos.

E assim caminha a humanidade. Políticas públicas não são discutidas; um amplo investimento para o setor é assunto que não passa nem perto dos pronunciamentos oficiais ou dos “tweets" [como está na moda no Brasil]; tampouco ganha atenção os temas referentes à melhoria da rede de proteção integral à criança e ao adolescente, e, muito menos, à questão do abismo social existente no país – pontos centrais que repercutem diretamente na construção de uma política educacional que se preze. E o debate fica assim, raso, superficial, esvaziado, acusatório, não propositivo e autoritário.

Agora querem nos filmar. Pois então que nos filmem! Mas filmem e AJUDEM a DIVULGAR os nossos depoimentos sobre as horas-extras que cumprimos semanalmente e não recebemos compensação alguma por isso; sobre as reais condições dos nossos ambientes de trabalho; sobre a não regularidade do pagamento de nossos salários; sobre os recursos que tiramos de nossos próprios bolsos – já minguados – para comprar materiais para os estudantes e para a própria Instituição; sobre as quermesses, festas juninas, dentre outras comemorações e promoções, por nós organizadas, no intuito de angariar verbas para implementar reformas em salas de aula, banheiros e demais espaços deteriorados nas escolas; sobre os livros que, em mutirão, ou por meio de doação pessoal, conseguimos para as bibliotecas; sobre o tempo que perdemos desmentindo as mais diversas calúnias, acusações gratuitas e inverdades colocadas em circulação, a fim de nos desestabilizar enquanto categoria; sobre a necessidade de termos que estar em duas ou mais frentes de trabalho para conseguirmos manter a nós mesmos e as nossas famílias.

Ainda quando estudante, ou mesmo antes disso, desde pequeno, em casa – sou filho de uma professora – eu ouvia com frequência que a educação está para libertar, emancipar e estimular. Que a educação está para nos dar oportunidades de pensarmos com nossas próprias cabeças, de acordo com reflexões críticas, profundas, embasadas e plurais da realidade. Ouvia muito também que a educação está para a diversidade, para o diálogo, para o amadurecimento de nossa democracia e de nossas cidadanias. Quantas maravilhas! Portanto, juntemos nossas energias e esforços para defendê-la, e também para valorizar aqueles que estão em sua linha de frente: os professores!  
 
[1] Nesse sentido, conferir as manifestações do alto escalão do governo, publicadas nos mais diversos meios de comunicação – nacionais e internacionais – e sobretudo em seus perfis nas redes sociais, especialmente as declarações dos Ministros da Educação, o anterior e o atual.
José Ricardo Menacho

por José Ricardo Menacho

Professor da UNEMAT/Cáceres e Escritor.
Autor dos livros: “O Plural do Diverso" (2016) e “Sarau" (2018).
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  • por Tatyana, em 03.05.2019 às 09:58

    Menacho sempre certeiro!

  • por Roberto, em 03.05.2019 às 08:21

    Quem não deve não teme, filmar para não ter doutrinação, se filmar esse povo da unemat metade desses professores travestido de militantes seria ótimo, Cáceres todo sabe que a unemat só tem petista, esse menacho claro que não apoia essa ideia.

 
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