Artigos / José Ricardo Menacho

29/04/2019 - 10:36

Por que ter medo da diversidade?

Por que ter medo da diversidade se a sociedade é assim, diversa? Por que ter medo do diferente, daquele que possui visões e características que passam bem longe das nossas? Por que – além de ter medo – querer encaminhar ao anonimato, aqueles que fogem dos padrões dominantes? Por quê? Por quê? Por quê?

Afinal hein, que país mesmo nós desejamos construir? Bom, se ainda temos medo da diversidade e seguimos não a compreendendo em sua grandeza, acho que o país que desejamos construir não se diferenciará muito do que experimentamos por agora. Continuaremos a ter um país que, por ter vergonha daquilo que [estruturalmente] é – desigual, racista, violento, autoritário, machista, intolerante, LGBTfóbico – cria, a todo tempo, meios, subterfúgios e artimanhas, ora para não se olhar no espelho, ora para não encarar de frente suas dores e sofrimentos, ora para maquiar aquilo que mais o incomoda: a sua própria imagem.

Aproveitando a deixa do parágrafo anterior, e, sobretudo, considerando o momento que vivemos no Brasil, acho que é possível – pensando na diversidade – ir mais adiante com esse exercício de adivinhação [ou de provocação] sobre que país nós desejamos construir.

Será como hein? E repito a premissa: bom, se temos medo da diversidade e seguimos não a compreendendo em sua grandeza – e, pelo andar da carruagem, inclusive o atual governo brasileiro parece externar [e reforçar] em suas declarações e projetos um sentimento que vai nessa mesma direção –, o país que desejamos construir, de fato, como “dantes no quartel de Abrantes”, permanecerá alimentando a criminalização da pobreza; a culpabilização da mulher vítima de estupro ou de violência doméstica; o armamento da população como suposta solução [inteligente] para combater os altos índices de criminalidade; a precarização do trabalho e o desprezo às pautas trabalhistas; o sucateamento – proposital – do patrimônio público; e a derrubada – irresponsável e criminosa – de nossas matas.

Acho que alguém pode estar se perguntando: mas o que esse papo aí em cima tem a ver com a questão da diversidade? Ou, de que forma os nossos desejos para a construção do nosso país guardam relação com a questão da diversidade?

Pois bem, o caso é o seguinte! Não há como ladrilharmos e – concomitantemente –  trilharmos um caminho em dignidades e cidadanias, em um Estado que, conforme a Constituição Federal, é DEMOCRÁTICO e de DIREITO, sem tomar como pressuposto a diversidade, em todos os seus aspectos, fundamentos, cores, matrizes e naturezas.

Porque, olha só, se o Estado é Democrático, pressupõe o quê? Pressupõe a pluralidade de ideias e de posicionamentos; o florescer das liberdades; o acesso à cultura; o brotar das oportunidades; a [re]presentatividade nos espaços de poder e de decisão; a ampla participação política; a produção e a socialização de conhecimentos. O “Democrático” do Estado, não está aí de enfeite, não é uma palavra dessas “pomposas”, a ser usada gratuitamente para dar ibope. Como desconsiderar então a diversidade?

E se o Estado é de Direito, esse “Direito” que está aí, como é o caso do Democrático explicado há pouco, tampouco está de enfeite. O Estado de Direito pressupõe o quê? A elaboração e a implementação de políticas públicas e sociais; a garantia dos direitos fundamentais – individuais e coletivos; o não autoritarismo; o livre e legítimo funcionamento das Instituições – dos Poderes da República. E pergunto mais uma vez, como então, diante desse quadro de complexidades, desconsiderar a diversidade?

Não, não é possível desconsiderá-la, sob pena do cometimento das mais graves e perversas injustiças. Sob pena de se perpetuar a segregação ao outro, que marcou – desde a colonização – por meio de variados arranjos, às vezes morais, às vezes legais, às vezes religiosos, tantos corpos e mentes, e que, infelizmente, ainda hoje, reverbera e perfaz muitas de nossas atitudes. Reverbera e perfaz, diga-se de passagem, como fruto de uma memória [talvez] esquecida para o consciente, mas muito viva para o inconsciente e, por essa razão, como não refletida ou discutida abertamente, permanece em curso, significando e produzindo efeitos [um tanto negativos].

A diversidade dá sentido a nós e ao mundo, abre portas para outros sentidos e possibilidades, corre, movimenta a si e a nós, não a apaguemos, portanto!
José Ricardo Menacho

por José Ricardo Menacho

Professor da UNEMAT/Cáceres e Escritor.
Autor dos livros: “O Plural do Diverso" (2016) e “Sarau" (2018).
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1 comentário

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  • por Neraldo Pinto de Miranda, em 30.04.2019 às 13:20

    Parabéns amigo Zé Ricardo pela matéria.

 
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