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Minha Opinião » Airton Reis

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Cesário Neto em Boletim

Nota de falecimento. Acontecimento criminal. Fato registrado em ocorrência policial. Cuiabá, capital capitulada pela violência em padecer sangrento e fatal. Cuiabá, memorial dos Bandeirantes homenageados em bairro localizado na área central. Cuiabá, pedestal da luz celeste difusa em solidariedade fraternal. Cuiabá, portal central do Brasil desprotegido em cidadania elencada em direitos, deveres e obrigações. Cuiabá, institucional em mais de uma escola vitimada por infrações penais.

Nota de esclarecimento. Barbaridade em andamento banalizado. Autoridade de carro blindado. Ritmo político e social descompassado. Sociedade em grade nada curricular. Escola para aprender? Escola para morrer? Escola para matar?

Nota de pesar. Poesia em lágrima cristalizada pela dor. Condolência presente no diário de mais de um professor. Alunos e alunas mais do que simplesmente testemunhas arroladas. Alunos e alunas das vidas marcadas por balas certeiras disparadas com fúria e precisão. Alunos e alunas das aulas suspensas por um assassinato em nada corriqueiro. Alunas e alunos ameaçados em tempo verdadeiro.

Nota de repúdio. República do rosário doloroso. Réplica do calvário do Nosso Senhor Bom Jesus. Cuiabá da Escola Estadual rabiscada em cruz.. Cuiabá da adolescência em rebanhos desgarrados. Cuiabá dos parlamentos silenciados aquém de um minuto. Cuiabá dos mansos, dos pacíficos e dos brutos. Cuiabá dos patronos da segurança pública órfã e incapaz. Cuiabá dos governantes incumbidos da paz social ameaçada além de um boletim. Cuiabá do cravo e da rosa florescendo num mesmo jardim. Cuiabá sem fim reeditado em ficção. Cuiabá em verso despetalado e sem qualquer canção.

Nota de presença. Sala de aula esvaziada pelo desespero. Pátio da escola transformado em patíbulo sem cadafalso e sem último desejo. Carrasco sem capuz na parceria da execução. Cinco tiros disparados sem clemência e sem perdão. Cinco tiros ecoados dentro de uma mesma jurisdição. Cinco tiros e mais do que uma vida humana interrompida em tragédia institucionalizada. Cinco tiros e mais do que uma página de jornal amarelada. Cinco tiros e mais de uma tela informatizada ligada na mesma rede digital.

Nota final. Pesadelo com mais de uma tipificação penal. Sonho de justiça aplicada em tribunal. Por hora, funeral. Por hora, mais do que comoção social. Por hora, imprensa e liberdade de expressão. Por hora, flagrante de mais uma prisão. Amanhã o mesmo ponto de interrogação continuado além de uma poesia. De que vale o céu azul sem o direito de cidadania? De que vale uma Carta Magna diante de uma sociedade em perpétua agonia? De que vale três poderes constitucionais desencontrados e sem qualquer sintonia? De que vale a lição da vida distanciada da harmonia?

 

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é poeta em Cuiabá.

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